– Continua! Estou a desenhar!

Afirmei, ao deparar-me com dois alunos, quase uns homens, em luta acesa, quando me aproximava da zona oficinal da escola onde estava situada a sala de Artes, e onde também dava cerâmica àquela turma de currículos alternativos.

Sucedeu há um bom par de anos. Fora do edifício principal, a zona era isolada e sem mais adultos por perto. Eu era ainda mais jovem e sabia que, como professora, estaria fora de questão não intervir. Observei demoradamente a cena, que se desenrolava à minha frente, com a turma agitada incitando a luta.

Sem delongas, destemidamente peguei em lápis e papel, em esboço de cenário. Um dos rufias estancou, braço no ar, pronto para aplicar um duro golpe no oponente e, com olhar vermelho e inquisidor, pergunta o que estou a fazer. Claro que tive de me impor, ordenando:

Continua! Era mesmo esse o gesto que preciso capturar para uma pintura.

E continuei empenhada no registo. Confuso, o rapaz ficou petrificado, mão em riste, enquanto o outro a nada se atrevia, assumindo o papel de quem vai apanhar uma sova.

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Quando terminei, com sorriso satisfeito, sem desviar o olhar do desenho como quem apura o traço, libertei os dois modelos da pose deixando-os aproximar para verificar resultados. Logicamente, demos lugar a uma conversa sobre a pintura, o gesto e o quanto é impressionante alguém capturar um momento. A entrada da sala ficava a uns metros e decidimos que a aula seria debaixo do telheiro, na rua, onde se passam as coisas. A turma serenou nesse dia e, acredito, todos ganhámos com isso.

Recordo esta história, entre tantas outras, a propósito do papel da Educação Artística no currículo educacional no desalinho das circunstâncias que enfrentamos.

Em primeiro lugar, afirmar a importância da Educação Artística constitui sempre um desafio em todos os lugares que atravesso, seja nas escolas ou na sociedade civil. Não é inusual a perceção, sobre o ensino artístico, como sendo limitada ao entendimento lúdico e expressionista, remetendo esta dimensão para um lugar residual do currículo educacional, espelhando uma debilidade também ela social. Foi sempre necessário explicar, testemunhar e protagonizar além do óbvio, para provar esta relevância na educação plena e integral das crianças, dos jovens e da comunidade.

Serve-me de argumento, em contramão, o impacto da sala de Artes na vida dos/as alunos/as, revelada em expressões como as que me brindaram as turmas, aquando do primeiro confinamento profilático:

Professora não imagina as saudades da nossa sala! Aquela sala não parece que está na Escola. A sala de artes é um lugar à parte. Olhe! É outro país!

A verdade é que a sala de Artes é o lugar inquieto, curioso, irreverente e questionador, cheio de possibilidades, onde todas as aprendizagens multidisciplinares conspiram para dar sentido às experiências que levamos para aquele espaço. É também o momento da interpelação sobre o que nos está a passar e como o estamos a viver. Principalmente, é o lugar a que se deseja pertencer!

Em segundo lugar, estas constatações assumem maior relevo numa atualidade de resistência, resiliência e transição que confunde e entorpece os estudantes. Face a um futuro incerto, o excesso de informação torna-se ruidoso, inclusive pelo acesso de banda larga ao digital, pelo que importa decantar o que é significativo, com doses precisas de inteligência, lirismo, emoção, humor e domínio técnico. É fundamental resgatar as memórias, os discursos culturais dos territórios próximos, para desenhar projetos de trabalho, de forma inteira, comprometida e séria. Além disso, o conhecimento multidisciplinar é ativado em experiências educacionais pertinentes, autorizando a autoexpressão que persegue a autoria, permitindo aos estudantes protagonizar a sua aprendizagem e assumir a responsabilidade desse compromisso.

No documento estratégico do Plano Nacional das Artes destaca-se a relevância da Educação Artística no cumprimento da Constituição e dos compromissos internacionais e nacionais, quando refere que: é hoje uma certeza comprovada cientificamente que a Arte como expressão pessoal e cultural se apresenta como um instrumento essencial no desenvolvimento social e humanista das crianças e dos jovens, desenvolvendo a perceção e a imaginação, possibilitando a apreensão da realidade do meio envolvente, e desenvolvendo a capacidade critica e criativa, assumindo-se ainda como o instrumento por excelência para educar as emoções, contribuindo para alcançar o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, a educação inclusiva, cooperando em projetos de flexibilidade curricular que aprofundam a experiência de cidadania ativa e nos desviam da superficialidade.

Uma educação que afina e sensibiliza todos os sentidos é um/a aluno/a que desperta. É a oportunidade de sublimar a ação, ao desenhar o gesto irrefletido e desconexo para lançar um diálogo sobre a expressão do que nos move e inquieta para começar na Escola esse País que nos apetece.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.