Lendo muitos colunistas de direita, pelo menos aqui por Portugal, fica-se com a ideia de que a eleição de Trump é culpa da esquerda e que o homem só foi eleito porque a esquerda não percebe os sinais dos tempos e, principalmente, não percebe o rancor que sentem os derrotados da globalização: a famosa “classe trabalhadora branca” (the white working class) ou os também chamados “brancos pouco qualificados” (non-college-educated whites).

Mas, na verdade, nestas últimas eleições, houve dois candidatos populistas que tentaram cavalgar a onda revolta dos “derrotados da globalização”. À esquerda, houve um Bernie Sanders e, à direita, Trump. À esquerda, Sanders foi derrotado nas primárias. Foi à direita que o candidato populista (com o picante da retórica racista, xenófoba e misógina) ganhou, derrotando nas primárias do Partido Republicano 16 candidatos, alguns dos quais de créditos bem firmados. Portanto, ou os colunistas de direita admitem que, no fundo, gostam de Trump, ou têm de reconhecer que têm um problema à direita e parar de culpar a esquerda pelos avanços de todos os populismos. Até porque, à esquerda, já temos problemas que cheguem, com partidos como o Podemos e o Syriza a espatifarem a esquerda moderada.

A direita, em vez de acusar a esquerda de não ligar aos derrotados da globalização, talvez deva olhar-se ao espelho. Afinal, já há bastantes anos que autores de esquerda, como o prémio Nobel Joseph Stiglitz ou Thomas Pickety, alertam para a desigualdade crescente e para os perigos daí decorrentes. O contra-argumento, verdadeiro, é quase sempre o mesmo: a desigualdade pode ter aumentado dentro dos países desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, e graças à globalização, dezenas de milhões de pessoas saíram da pobreza extrema nos países menos desenvolvidos, como na China ou na índia. Só que nem chineses nem indianos votam nos Estados Unidos, ou em França, ou em Inglaterra.

Tudo isto era previsível para quem conhece a teoria económica do comércio internacional. Por exemplo, há um famoso teorema que vem em todos os manuais de Economia Internacional chamado Teorema de Stolper-Samuelson (que foi formulado nos anos 40 do século passado). Diz-nos ele que o comércio livre é uma força que contribui para a igualização dos salários entre países. E, naturalmente, os trabalhadores dos países com salários baixos ficam a ganhar, mas os trabalhadores dos países desenvolvidos ficam a perder. E se, no modelo matemático que dá origem ao teorema, distinguirmos os trabalhadores entre qualificados e não qualificados, veremos que são os trabalhadores não qualificados dos países ricos os prejudicados, com uma diminuição do seu salário real. Ou seja, a desigualdade dentro dos países desenvolvidos pode aumentar, mas, em compensação, a desigualdade entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos diminui.

Reconheça-se que, no debate público, muitos economistas são culpados por omissão, referindo quase sempre o lado doce da internacionalização e esquecendo deliberadamente os seus riscos. Como há 20 ou 30 anos o mundo era bem mais fechado do que é hoje, isso justificava-se com o medo de dar munições a quem era contra a abertura de fronteiras; hoje, essa retórica não faz sentido. O mundo globalizado é uma realidade com que tem de se lidar objectiva e racionalmente, não com base em informação parcelar.

Se há vencedores e perdedores, como afirmar então que a globalização é globalmente benéfica? A verdade é que com o comércio internacional a riqueza global aumenta, pelo que que os ganhos são maiores do que as perdas. Cabe a cada país definir as políticas redistributivas que garantam que os ganhos da globalização são distribuídos por todos. Está na altura de todos nos convencermos de que os alertas levantados por economistas como Stiglitz ou Pickety sobre os perigos económicos (e políticos) da crescente desigualdade são para ser levados a sério.

Falei nos derrotados da globalização, quando, na verdade, podia estar a falar nos derrotados da tecnologia. Em muitos aspectos, progresso tecnológico e comércio internacional confundem-se. Há até quem argumente que o comércio internacional é uma forma de progresso técnico — basta ver que pôr garrafas de vinho num navio para a China e trazer de lá smartphones noutro navio é quase a mesma coisa que construir uma nova fábrica com uma incrível nova tecnologia que permita produzir smartphones a partir de uvas.

Digo isto porque é muito comum ver gente inteligente a desqualificar os efeitos perversos do desenvolvimento tecnológico com a mesma leveza com que se desqualificava os argumentos contra o comércio livre. E, na verdade, pelo menos para já, as vítimas são as mesmas, os trabalhadores pouco qualificados. Tipicamente, a quem se preocupa com o aumento do desemprego causado pelas novas tecnologias, responde-se com o argumento, verdadeiro, de que, se não fosse o progresso técnico, ainda hoje lavávamos a roupa à mão. Mais uma vez se faz por não ver os problemas gerados pelo progresso, para assim evitar pensar sobre eles

Não gostaria de acabar este artigo sem deixar bastante clara a minha opinião. Sou totalmente desfavorável a qualquer travão à globalização e ao progresso técnico. Todos temos a ganhar com isso. É, no entanto, necessário assegurar que todos ganhamos. Se à esquerda se exige que perceba que, com a globalização e a robotização, as tradicionais políticas de redução de desigualdade, como salários mínimos altos, são perigosas e podem destruir emprego, incentivando a substituição de trabalhadores pouco qualificados por máquinas, à direita exige-se que perceba que a desigualdade é um problema sério que tem de ser combatido.