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Serviço Nacional de Saúde

Conversa da obstreta /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
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Como é que Costa acha que vão reagir os condutores de ambulâncias quando começarem a ser agredidos por grávidas irritadas, às voltas em Lisboa à procura da urgência que calha estar aberta naquele dia?

Este ano, em Agosto, o nome mais popular para bebé vai ser diferente do costume. De cada vez que uma grávida for impedida de dar à luz num sítio e for recambiada para outro, há-de se lembrar do que aconteceu a Maria e José, em Belém, e vai chamar Jesus ao recém-nascido.

Não percebo António Costa. Acaba de resolver um problema tramado com os condutores de matérias perigosas, para se ir agora meter com os condutores de matérias perigosíssimas. Como é que Costa acha que vão reagir os condutores de ambulâncias quando começarem a ser agredidos por grávidas irritadas, às voltas em Lisboa à procura do serviço de urgências de obstetrícia que calha estar aberto naquele dia? Eu preferia conduzir uma Ford Transit carregada de jerrycans de urânio enriquecido embalados por um daqueles cientistas russos de Chernobyl muito nabos, a transportar uma grávida com contracções de 30 em 30 segundos e a ameaçar matar-me se não chegamos ao hospital de 15 em 15. Se a minha mulher, a 10 dias do parto, me atirou uma chaleira à cabeça só porque eu demorei um bocadinho a ir buscar uma embalagem de Cheetos Chedar Jalapeño Crunchy para o pequeno-almoço, o que não fará uma grávida a 10 minutos de parir, se o bombeiro parar para pedir indicações de trânsito sobre o melhor caminho para as urgências?

É evidente que Costa, possuidor de fina inteligência política, pesou bem os prós e contras de mais uma medida que deixa transparecer a degradação do SNS. De certeza que tem uma boa razão para voltar a mostrar que nos tem andado a endrominar com a conversa do fim da austeridade. Eu acho que sei qual é o plano de Costa. E, tenho de admitir, é brilhante. Acompanhem-me: uma grávida está prestes a dar à luz. Mete-se no carro. Tem pouca gasolina, por isso vai à bomba. Percebe que não tem dinheiro para o combustível e abandona o carro. Apanha o metro, mas as carruagens estão tão cheias que ela tem medo que lhe espremam a barriga e o bebé saia disparado, por isso sai e vai para a paragem do autocarro. Mas o autocarro não vem. Resolve ir a correr. Chega à maternidade, mas está fechada, de maneira que tem de ir a correr para outra. Se, no fim da gincana, o bebé nascer saudável, é óbvio que vai ser uma espécie de Kal-El, o nome do Super-Homem quando era um bebé em Kripton. Provavelmente, sai cá para fora já com a bandana do Rambo na cabeça. O que Costa pretende é selecionar as mães com os melhores genes, que gerarão bebés portugueses de qualidade superior. Este escangalhar propositado dos serviços públicos é isso mesmo: eugenia das barracas.

(É uma política altruísta do PM. Portugal vai lucrar com estes jovens, mas o PS, duvido: crianças que aprendem, desde tenra idade, que se conseguem desenvencilhar bem apesar do Estado, não serão socialistas.)

Entretanto, na semana passada, em Beja fez, nasceu um bebé numa bomba de gasolina. Mais uma estupenda iniciativa do Governo: prova que os obstetras não são assim tão necessários e resolve o problema dos atrasos no Cartão do Cidadão, na medida em que, enquanto espera 17 anos pelo seu, o bebé vai usando o Galp Frota que recebeu, já carregado com 150 pontos.

Agora, para as grávidas que insistirem em dar à luz em boas condições, no local da sua escolha, sugiro o seguinte: uma vez que só a obstetrícia está a ser afectada, apresentam-se no Hospital para fazer um aborto. Quando estiver tudo pronto para a operação, dizem que mudaram de ideias e afinal preferem ter o bebé. Depois, perguntam se, uma vez que o tipo de acto médico é muito parecido, o pessoal médico que lá estava para o aborto se importa de fazer o parto. Em princípio, não deve haver problema. Se houver, é dirigirem-se à Repsol da área de residência.

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