Se o coração não é capaz de bombear o sangue em quantidade suficiente para assegurar a sua passagem e oxigenação por todos os órgãos e sistemas, ou quando só o consegue fazer no contexto de sobrecarga de pressões elevadas, estamos perante uma condição clínica grave. Este é um problema maior de saúde pública, com elevado impacto para os doentes e para os sistemas de saúde.

Falamos da Insuficiência Cardíaca, uma condição clínica que tem vindo a aumentar de forma exponencial nos últimos anos e que se estima que virá a crescer vertiginosamente nas próximas décadas.

O estudo EPICA (Epidemiologia da Insuficiência Cardíaca e Aprendizagem), de 2002, aponta para uma prevalência global em Portugal de 4,4%, com aumento com a idade, atingindo valores superiores a 14% acima dos 80 anos. Segundo os dados da Direção-Geral da Saúde em 2014, constituiu a segunda maior patologia em termos de atribuição de recursos para os sistemas de saúde, com quase 19 mil internamentos, com a duração média de 10 dias e elevada mortalidade hospitalar.

Por outro lado, os internamentos pautam-se por elevado consumo de recursos e as readmissões aos 30 dias são elevadas. Mais preocupante, ainda, são as previsões de crescimento, com um aumento de cerca de 35% até 2035 e de 33% em 2060. Diversos estudos económicos apontam para um também exponencial aumento da sobrecarga económica gerada, o que reforça a necessidade de dar prioridade máxima à sua prevenção.

A Insuficiência Cardíaca caracteriza-se por um conjunto de sintomas e sinais decorrentes de alteração estrutural e funcional do coração. Os sintomas mais frequentes são o cansaço ou a falta de ar para esforços progressivamente menores ou em repouso. Quanto aos sinais, verifica-se, com o recurso a um exame objetivo, a acumulação de líquidos, com inchaço dos membros inferiores, retenção de água nos pulmões ou aumento do volume abdominal.

A integração de doentes em programas de tratamento hospitalares é fundamental para assegurar cuidados mais especializados, integrados em rede, que passam pela consulta realizada por enfermeiro e médico, a educação e gestão da doença, os sinais e sintomas de alerta, a cuidados alimentares, exercício físico e ajuste da medicação, até ao Hospital de Dia, quando a necessidade de controlo mais rigoroso do doente é mais exigente, com a possibilidade de terapêutica endovenosa pontual, ou às unidades de cuidados intensivos para casos de maior gravidade.

Esta abordagem deverá ser holística, respeitando sempre a individualidade de cada doente, a adequação das medidas e, ainda, a possibilidade de reabilitação cardíaca após reavaliação cuidadosa. Viver com qualidade é mais fácil quando os cuidados de saúde estão focados no doente e na família. Por outro lado, existem múltiplas terapêuticas com comprovado e significativo benefício na redução e alívio dos sintomas, aumento da sobrevivência e prevenção de agravamento.

Se tem Insuficiência Cardíaca, ou suspeita que pode ter, procure a sua equipa de saúde, se necessário vá ao hospital. Por exemplo, no Hospital CUF Infante Santo, já começámos a retomar a atividade programada de consultas, exames e tratamentos, com um reforço de medidas de segurança e proteção.

Não esqueça a elevada morbilidade e mortalidade da sua condição: a Insuficiência Cardíaca tem maior mortalidade do que a maioria dos cancros. Por isso, não fique em casa por medo de infeções, como a da COVID. A sua proteção está assegurada. Os hospitais implementaram medidas de proteção e segurança e estão devidamente preparados para o receber.

Como pode prevenir a insuficiência cardíaca? Controlando desde cedo os fatores de risco cardiovasculares. A maioria dos casos, nas sociedades mais desenvolvidas, decorrem de doença aterosclerótica coronária. Se controlar a hipertensão arterial, o nível de gorduras no sangue, a diabetes, se não fumar, não beber álcool em excesso, praticar exercício físico, manter o peso controlado e alimentar-se de forma saudável, está a prevenir-se. Está a proteger–se a si, à sua família e aos seus amigos.

Comece já em maio, o mês do coração, a prevenir a Insuficiência Cardíaca, porque as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal. Muito depende de si.