Rádio Observador

Comunismo

Cortina de silêncio em torno de Arquivos Mitrokhin

Autor
247

As provas apresentados no Expresso e no meu livro são mais do que suficientes para que as nossas autoridades se interessassem pela espionagem do KGB, mas tudo continua perdido numa cortina de silêncio

A publicação no semanário “Expresso” de novas informações sobre Portugal nos Arquivos Mitrokhin deveria obrigar-nos a pensar uma vez mais sobre as actividades de algumas forças e personalidades políticas na nossa história recente, mas, no lugar disso, assistimos ao levantamento de uma cortina de silêncio em torno do problema, provocado por razões políticas e não só.

Não há margem para dúvidas que as informações contidas nos apontamentos do antigo arquivista do KGB soviético, Vassili Mitrokhin, são verdadeiras. Como seria possível que uma pessoa, por muito genial que fosse, conseguisse dados sobre Portugal que coincidissem tão bem com a realidade? Porque é que Mitrokhin se interessaria por Portugal se realmente nada tivesse acontecido de substancial?

A reacção a este tema do Partido Comunista Português, a força política mais visada nessas notas, se ainda surpreende, é pelo facto de responder não com argumentos, mas com insultos cada vez mais desesperados: “O papel aguenta tudo e portanto o limite para este infame ultraje ao PCP, força patriótica, coloca-se apenas à imaginação dos difamantes e dos caluniadores. Sem se sentir obrigado a ter em conta as reiteradas afirmações que sobre isso o PCP e os seus principais dirigentes fizeram, o Expresso procura enlamear o nome do Partido, bastando-lhe assentar toda esta aldrabice numas memórias de um qualquer vendido, ainda por cima falecido, afrontando a verdade e passando por cima dos desmentidos de todos aqueles que o pasquim decidiu contactar”, escreve João Frazão no Avante e remata num estilo bem estalinista: “Como lixo que são, o lugar destas peças é no Arquivo Cesto”.

Não tenhamos pressa em seguir este conselho de um militante de força tão “patriótica”, pois, se cruzarmos estas notas com outros documentos já antes publicados, nomeadamente no meu livro “Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril” ou em artigos que escrevi para o “Público” logo após o fim da URSS, veremos que as coincidências são muitas.

Mas antes disso, é preciso deixar aqui uma pequena explicação. Vassili Mitrokhin trabalhou com os arquivos do KGB, enquanto eu tive acesso aos arquivos do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), ou seja, coincidem dados extraídos de documentos arquivos de dois importantes pilares do comunismo na URSS.

Vejamos, uma das personalidades mais relevantes que surgem na “parte portuguesa” do Arquivo Mitrokhin” é Octávio Pato, conhecido dirigente comunista que tratava da angariação de fontes junto do Kremlin e dos contactos com o KGB soviético. No meu livro, publico na pág. 205 um documento retirado da Pasta Especial do CC do PCUS, onde se guardavam os materiais mais secretos, que diz o seguinte: “A direcção do Partido Comunista Português (camarada O. Pato) dirigiu um pedido de aquisição para o PCP de tecnologia especial de fabrico estrangeiro para garantir a segurança do partido…”.

Este documento data de 25 de Abril de 1980 e tem continuidade numa decisão do Secretariado do CC do PCUS: “Satisfazer o pedido da direcção do Partido Comunista Português e encarregar o KGB da URSS de adquirir e fornecer tecnologia especial ao PCP”.

Após o derrube da ditadura comunista na URSS, foram encontrados e publicados recibos assinados por Octávio Pato quando recebia milhares de dólares de “internacionalismo proletário”.

No jornal Expresso de 2 de Abril, é publicado o nome e a alcunha de um médico e deputado socialista que trabalhou para o KGB: António (Medik), “que ofereceu os seus préstimos enquanto conferencista para defender os métodos da ex-URSS face aos dissidentes”. Estes dados coincidem totalmente com os documentos publicados no meu livro sobre António Fernandes da Fonseca, deputado socialista e conhecido especialista no campo da Psiquiatria.

Durante a visita de uma delegação parlamentar portuguesa à URSS, em Novembro de 1976, esse médico ofereceu os seus préstimos a Moscovo para combater a campanha internacional contra o emprego da Psiquiatria na perseguição aos dissidentes. Num dos documentos por mim revelados na página 196 do mesmo livro, lê-se que “A. Fernandes da Fonseca pediu para que lhe fossem enviados os respectivos dados para preparar a sua intervenção no congresso [Congresso Mundial de Psiquiatras em Honolulu]… e para fazer chegá-los a psiquiatras de outros países e povos que falam português”.

Por estes dois exemplos, mas pode-se encontrar outros como o desvio de passaportes portugueses, como o treino de militantes do PCP pelo KGB, etc., constata-se que os dados contidos nos Arquivos de Mitrokhin são fidedignos. Claro que não se pode acusar de “agentes soviéticos” todas as pessoas que falavam com homens do KGB e recebiam “alcunhas” destes últimos, porque, frequentemente, isso era uma forma de mostrar que tinham uma grande capacidade de “recrutar”.

Quanto ao desvio de parte dos arquivos da PIDE e de outros serviços, nomeadamente de inteligência militar, só podem duvidar aqueles que não querem ver a realidade. Falei com vários investigadores que consultaram os arquivos da PIDE na Torre do Tombo e surpreende-lhes o facto de neles não existir nada ou quase nada sobre alguns grandes empresários portugueses ou sobre organizações que, pela sua importância, deveriam estar lá. Por exemplo: será que a PIDE não tinha pastas sobre as “actividades subversivas” dos Missionários Combonianos em Moçambique, alguns membros dos quais foram perseguidos pela polícia política? Na Torre do Tombo não está nada.

A argumentação de que o Arquivo da PIDE podia não interessar aos soviéticos porque se tratava de uma polícia com poucos contactos internacionais é simplesmente ridícula e não só porque no seu nome tem a palavra “internacional”, mas porque Portugal tinha um enorme império colonial. A documentação da inteligência militar podia ser um caminho directo para os segredos da NATO.

Os argumentos e provas apresentados no Expresso e no meu livro são mais do que suficientes para que as autoridades portuguesas se interessassem mais a sério pelo caso, mas, no lugar disso, o tema é envolto numa cortina de silêncio.

Alguns dos analistas políticos nacionais acusam o Expresso de se debruçar sobre este tema agora para tentar enfraquecer o actual governo através da crítica a um dos seus pilares: o PCP. Eu fico com a impressão contrária: o actual governo não quer irritar um dos seus aliados. Caso contrário, poderia começar averiguações no sentido de apurar responsabilidades. Pelo menos em nome da verdade histórica.

O mesmo se deveria esperar da Procuradoria-Geral da República, mas, segundo noticia o Expresso, não foi possível obter resposta desse órgão às perguntas do jornal.

Quem tem medo da história?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A Cortina de Ferro volta a fechar-se? /premium

José Milhazes
249

Os cientistas estrangeiros, quando de visitas a organizações científicas russas, só poderão utilizar gravadores e máquinas copiadoras “nos casos previstos nos acordos internacionais".

Rússia

Chega de brincar à democracia! /premium

José Milhazes
360

A polícia e os tribunais russos viram o que ninguém viu e vários manifestantes e candidatos a deputados foram acusados e serão julgados por "organização de desordens em massa", podendo ficar presos.

PCP

PCP: partido liberal falhado?

José Miguel Pinto dos Santos
513

Será então que a proposta eleitoralista de taxar depósitos acima de 100 mil euros um desvio liberal de um partido warxista? De modo algum. Não só é iliberal como irá agravar a próxima crise económica.

Liberdades

Liberdade para bons vs liberdade para os maus

Vicente Ferreira da Silva
159

Nazistas, fascistas, marxistas e trotskistas acontece serem todos inimigos da liberdade e da democracia. Hitler e Mussolini tinham mais em comum com Marx e Trotsky do que com qualquer pensador liberal

Crónica

E se o nosso futebol fosse gerido por comunistas?

João Pestana de Vasconcelos
1.496

Se aplicássemos as ideias comunistas ao futebol português, deixaríamos as boas intenções de ajudar os mais desfavorecidos arruinar a sua competitividade. Porque havemos de as aplicar à nossa economia?

Socialismo

Má-fé socialista /premium

José Miguel Pinto dos Santos

Não é a situação social em Portugal muito melhor que na Venezuela — e que nos outros países socialistas? Sim, mas quem está mais avançado na implantação do socialismo, Portugal ou Venezuela?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)