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O facto do PM e do líder do maior partido da oposição estarem entretidos a brincar com eleições mostra o nível de irresponsabilidade a que chegou a política nacional. Um quis antecipar eleições nacionais, o outro quer adiar eleições no partido. Comecemos pelo PM, António Costa. Antes das eleições autárquicas, percebeu que havia uma boa oportunidade para causar eleições antecipadas. O país saía da pandemia com uma campanha de vacinas vitoriosa, o dinheiro da Europa estava a chegar e o PSD estava muito fragilizado.

António Costa usou assim a campanha das autárquicas como um ensaio para eleições antecipadas. Andou em campanha por todo o país, como nunca se viu um PM fazer. Para Costa, houve uma campanha eleitoral nacional. Dava a vitória em Lisboa como garantida, acreditava que manteria Coimbra e o Funchal, e até sonhou em ganhar Viseu, onde foi no fim da campanha. Pelo meio, prometeu dinheiro a todas as autarquias socialistas, as presentes e as que seriam conquistadas.

Mais uma vez, a campanha eleitoral correu mal a Costa. Viu o partido socialista perder a Câmara de Lisboa. Esta derrota foi muito dura. O sucessor de Costa, Fernando Medina, na Câmara foi derrotado contra todas as sondagens e por uma campanha magnifica de Carlos Moedas. Lisboa deixou cicatrizes políticas em Costa e, quem sabe, a vitória de Moedas terá evitado eleições antecipadas. Além de Lisboa, o PS perdeu Coimbra, Funchal e Viseu. E, no Porto, sofreu um resultado miserável, uma derrota clara para a linha socialista radical de Pedro Nuno Santos.

A derrota de Costa – decididamente, Costa é fraco em campanhas eleitorais – obrigou-o a negociar com o Bloco e com o PCP, e até a estar disposto a aceitar acordos escritos. O PM enfrenta agora um dilema. Ou aceita condições das extremas esquerdas, que serão más para o país e pelas quais o governo pagará um preço alto no futuro, ou tem mesmo que ir para eleições antecipadas.

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Se houver eleições antecipadas, a grande mentira contada por Costa desde 2015, de que os partidos das esquerdas são aliados naturais e entendem-se facilmente, será exposta a todo o país. Seria uma campanha muito difícil para Costa, com os antigos aliados da geringonça, numa espécie de guerra civil, a acusarem-se uns aos outros pela queda do governo. Há sempre um dia em que as batotas se viram contra os batoteiros. Com um líder talentoso e capaz, o PSD seria o grande beneficiado.

Passemos agora a Rui Rio. Num ataque de pânico difícil de explicar, Rio defendeu o adiamento das eleições para a liderança do PSD com o argumento de que poderia haver eleições antecipadas. Há aqui um padrão de comportamento muito preocupante, se nos recordarmos que Rio também havia sugerido o adiamento das eleições autárquicas. Um líder de um partido democrático que está sempre a pedir o adiamento de eleições mostra que não acredita na sua capacidade de vitória.

Também demonstra um entendimento muito deficiente da democracia. No sistema democrático, os calendários eleitorais devem ser sempre respeitados. Se o mandato de Rio como líder do PSD está a chegar ao fim, deve haver eleições no partido. É muito simples. Se passado um mês, houver eleições legislativas, o líder eleito será candidato a PM. Assim é a vida política, cheia de surpresas. O líder recém eleito gozará até de maior legitimidade e força políticas.

O pedido de adiamento com a desculpa de que poderá haver eleições antecipadas vai mesmo contra um dos grandes argumentos de Rio: os partidos no governo perdem eleições, não são os da oposição que as ganham. Ora se assim é, o tempo de liderança do Presidente do PSD é uma questão secundária. Aliás, se levarmos o argumento de Rio até às últimas consequências, é mesmo indiferente estar ele ou outro na liderança do PSD. Quando chegar o momento do PS perder, quem estiver à frente do PSD vai para São Bento.

Rio é um líder confuso e a sua liderança mostra como o seu pensamento está errado. A pessoa que está na liderança do partido interessa e muito. Com Rio, o PSD nunca ganhará uma eleição. Rio foi sempre o candidato de Costa à liderança do PSD. Foi assim contra Santana e contra Montenegro e é assim contra Rangel. Como se verá, com Rangel, o PSD voltará a ser candidato a vencer as eleições. Moedas voltou de Bruxelas para ganhar Lisboa. E Rangel poderá regressar de Bruxelas para chegar a PM.

Na eleição entre Rio e Rangel, os militantes do PSD devem perceber muito bem o que está em jogo. Devem decidir que partido querem. Se um PSD centrista, sem identidade política, subordinado ao PS e que permitiu a fragmentação do eleitorado das direitas. Ou se querem um partido que assume o confronto aberto com o PS, cuja vocação é construir uma grande maioria de centro direita para governar o país, e com capacidade para esvaziar o Chega.  Rio nunca percebeu qual é a grande vantagem competitiva do PPD/PSD no sistema democrático português: o lugar das várias direitas é dentro do partido e não fora. Rangel já mostrou que percebe.