Costumamos dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras quando queremos chamar a atenção para um tema que consideramos importante. Contudo, há situações em que basta um dado, uma estatística, para produzir um efeito ainda mais impactante.

Foi o que aconteceu há apenas três semanas, quando foi apresentada a Estratégia Europeia para a Igualdade de Género. Aí pudemos verificar que continua a haver um longo caminho a percorrer na luta contra os estereótipos de género: 44% dos europeus ainda pensam que o papel das mulheres é cuidar da casa e da família, incluindo o cônjuge. Infelizmente, essa afirmação coincide com uma realidade estatística que traduz, uma vez mais, a desigualdade que continua a prevalecer na Europa: as mulheres continuam a dedicar, em média, o dobro do tempo dos homens ao trabalho não remunerado.

É habitual ouvir dizer que estamos a desaproveitar o talento das mulheres, que tendo mais formação, ficam mais frequentemente fora do mercado de trabalho do que os homens. Mas já não é tão comum ouvir dizer que estamos perante uma perda do “talento de cuidador” dos homens, que participam ainda menos no trabalho doméstico e na assistência familiar do que as mulheres no mercado de trabalho. Esta situação tem consequências muito profundas na desigualdade de género, tanto no emprego, como nos salários. Tem ainda  implicações na repartição dos deveres de cuidado em sociedades que tendem a estar cada vez mais envelhecidas, como é o caso da europeia, e pode refletir-se também na situação de pandemia que vivemos com a COVID-19, sem esquecer a crise económica que ainda está por chegar.

Por esta e outras razões, é tão importante ter estatísticas desagregadas por sexo, em todas as áreas de estudo e análise. Por exemplo, o primeiro passo para mudar uma realidade como a da violência de género ou da discriminação salarial é conhecê-la, o que só é possível se houver dados de qualidade, segregados e não androcêntricos.

Hoje, esta necessidade tornou-se ainda mais urgente, num momento em que os dados e a possibilidade de usá-los em quantidades cada vez maiores e com maior velocidade são a base da sociedade e da economia, e os alicerces da revolução digital, em que nos integramos sem solução de continuidade. Os dados são também hoje essenciais para conhecer a realidade e ajudar na luta contra pandemias como a COVID-19.

É por isso que defendemos, no Parlamento Europeu, que a Estratégia Europeia de Dados, apresentada recentemente pela Comissão Europeia, deve incluir o compromisso de trabalhar e oferecer dados segregados entre homens e mulheres, além de outros que evitem qualquer forma de discriminação e permitam análises numa perspetiva alargada. Essa é, aliás, a única forma de fazer avançar a pesquisa e a inovação. Muitas novas áreas serão desenvolvidas com a ajuda desses dados, principalmente, a da Inteligência Artificial.

Na crise atual, a necessidade de dados desagregados é decisiva. Segundo o diretor geral da Organização Mundial da Saúde, Dr.Tedros Ghebreyesus: “[…] os países precisam de dados segregados para entender quem é deixado para trás e porquê”. Obviamente, nesta crise os dados serão necessários num sentido amplo, e não apenas no aspeto de emergência de saúde pública. Os países que já dispõem de dados sobre a COVID-19 ficaram a saber que a maioria das pessoas infetadas e que faleceram, até agora, eram homens, representando cerca de dois terços do total. Todavia, se olharmos para a situação numa perspetiva mais abrangente, existe a possibilidade de a COVID-19 ter um impacto muito negativo sobre as mulheres e a igualdade de género, precisamente porque são elas que prestam a maior parte dos deveres de cuidado e assistência nas profissões de saúde, e também porque têm menos rendimentos.

Num artigo anterior, destacámos pelo menos três áreas em que os efeitos desta crise podem ser especialmente graves para as mulheres, se as políticas públicas não levarem em conta esse eventual impacto desigual.

A primeira é a “sobre-especialização” da mulher como cuidadora, tanto nos serviços públicos como no mercado de trabalho, e, sobretudo, na esfera familiar. A atual conjuntura da COVID-19 conduziu ao  encerramento das escolas. O facto de as crianças terem de ficar em casa significa um aumento das necessidades de apoio, dificultando a compatibilidade dessas tarefas com o trabalho remunerado. A isso soma-se a distribuição desigual do trabalho doméstico por género, que pode resultar numa diminuição da produtividade que afetará mais as mulheres. Essas circunstâncias, por sua vez, podem ter impacto nas possibilidades, já desiguais, de homens e mulheres manterem os seus empregos ou serem promovidos quando puderem voltar a exercer, com normalidade, a sua atividade profissional anterior. E tudo isso sem contar com o desgaste físico e mental que a crise provoca nos cuidadores.

A segunda área é a relacionada com a violência de género. O confinamento em casa imposto em muitos países implica que mulheres e menores estão a viver 24 horas por dia com seus agressores, sem ter hipótese de escapar.

Finalmente, o terceiro ponto tem a ver com os vínculos laborais mais precários das mulheres, o que as torna particularmente vulneráveis se a deterioração das nossas economias for tão séria quanto os especialistas anteveem.

Deste modo, é absolutamente indispensável que a recolha de dados seja feita com o maior nível de segregação possível para conhecer em detalhe os diferentes efeitos desta crise, nomeadamente, se e como afetaram de forma diferente homens e mulheres.

Quando chegar a hora de reconstruir a economia e a sociedade, precisaremos de toda a informação que nos permita saber como todos fomos afetados, e não apenas quantos foram infetados. Só assim poderemos superar esta crise sem abandonar o nosso objetivo de tornar as nossas sociedades mais justas e igualitárias.

Maria Manuel Leitão Marques é Professora Catedrática da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Lina Gálvez Muñoz é Professora Catedrática de História e Instituições Económicas da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha.