Vista ao longe, a forma imperturbável como Portugal está a encarar o drama de Adriano Maranhão, o único português infectado com o Covid 19, parece-se imenso com estoicismo. Felizmente, não é o caso. Era só o que faltava que, de repente, começássemos a não reagir histericamente quando um compatriota se destaca lá fora, seja porque marca muitos golos, porque fabrica umas tábuas de cozinha muito jeitosas ou porque um vírus maroto se decidiu alojar no seu corpo. Não, não ficámos fleumáticos. Não estamos é admirados. Já nos habituámos a que portugueses não tenham cuidados médicos adequados, de maneira que não nos emocionamos com o que Adriano está a passar. No estrangeiro, um doente não ser visto por um médico em tempo útil pode ser sinal de pandemia. Em Portugal, é terça-feira.

Adriano teve azar. Não vai ter muita solidariedade por parte dos milhares de concidadãos que, todos os dias, esperam horas para ser atendidos no SNS. Os portugueses não têm pena de Adriano, têm inveja: ali, repimpado na sua cabine individual com wifi, em vez de numa maca encostada num corredor, a sua história não comove. Estamos perante o Fernão Mendes Pinto do séc. XXI, um marinheiro português no Japão, que nos conta histórias incríveis, mas em quem temos dificuldade em acreditar.

A sorte de Adriano é ser casado com Emanuelle que, a 11 mil km de distância, conseguiu que o marido seja finalmente transferido para um hospital. Qual ADSE, qual carapuça, o SNS devia era atribuir uma Emanuelle Maranhão a cada utente.

Agora que penso nisso, Adriano está no Japão, um dos países mais desenvolvidos do mundo, e tem o mesmo tipo de tratamento que nas Urgências do Garcia de Orta. Se calhar, o problema não está no SNS, está em nós. Os jamaicanos têm jeito para corrida de velocidade, os brasileiros têm talento para o futebol, é possível que sejamos geneticamente programados para sermos mal atendidos em serviços de saúde.

Aliás, desde que isto começou, já houve cinco ou seis casos de portugueses suspeitos de terem o Covid, que foram testados e afinal tinham outra maleita qualquer. O mais provável é ser gente esperta que sabe que, se disser que esteve à conversa com um chinês constipado, é atendida mais rapidamente no Hospital.

Neste momento, Adriano já não deve estar confinado à sua cabine do navio de cruzeiro atracado em Yokohama e carregadinho de doentes. O Diamond Princess é uma espécie de disco de Petri flutuante em ponto grande. Faz lembrar o Barco do Amor. Quem via a popular série dos anos 80 (não está no Netflix, millennials) conhece bem o guião de cada episódio: havia sempre um passageiro que entrava sozinho no navio e arranjava lá companhia. Normalmente, era uma namorada, mas nesta época progressista, porque não um agente infecioso mortífero?

Entretanto, em Itália, as prateleiras vazias, a atividade económica parada e as populações proibidas de circular mostram que o Covid-19 pode ser muito mais perigoso que uma epidemia, pode ser comunismo. Pelo sim, pelo não, vou ter atenção ao que o PCP e o BE dizem sobre o combate ao vírus, a ver se acusam uma futura vacina de ingerência.

O nível de preocupação dos italianos é tal que cancelaram o Carnaval de Veneza. Ora, não faz qualquer sentido cancelar uma festa que foi inventada, justamente, para se propagarem vários tipos de doenças. Está-se injustamente a discriminar uma doença.

Das minhas pesquisas da Internet, parece-me que não há razão para este nível de histerismo. Mas é possível que o meu computador ainda esteja afectado pelo malévolo bug do milénio, que espalhou o caos pelos sistemas informáticos de todo o mundo, e me esteja a fornecer pesquisas erradas. De certo modo, o Covid-19 faz-me lembrar “A Peste”, na medida em que li com atenção, quer a obra de Albert Camus, quer as notícias sobre o vírus, e posso dizer que não percebi nenhuma. Mas parecem-me estupendas obras de ficção.