Há uma trégua no combate rasteiro em que a discussão parlamentar tinha caído. Depois desta fase, espera-se que volte o combate político sério e a oposição se assuma na defesa do bem-estar dos Portugueses. Costa tem uma trégua, só isso, e já não é pouco. Tudo o que agora decidir será cobrado num futuro que nem será longínquo. Para já, como é habitual em crises que abafam a oposição, os que governam crescem em sondagens feitas sob o signo do medo.

Ao mestre das desculpas não se poderá tolerar mais uma, a da COVID-19. Durante os primeiros 4 anos de governação António Costa, o PS e a extrema esquerda com quem esteve coligado, acusaram sempre e despudoradamente o governo PSD-CDS de tudo o que de mal acontecia em Portugal. Esqueceram convenientemente que o programa de assistência financeira tinha sido uma consequência de erros de governação socialista, sem esquecer a infelicidade da crise financeira mundial de que o PS não teve culpa. Omitiram todas as virtudes do que Passos Coelho tinha feito e só se focaram em dizer mal. Nunca tiveram a humildade de reconhecer que Portugal estava, em novembro de 2015, muito melhor do que em junho de 2011. Acabaram a impor ainda mais austeridade do que no passado. Não compreenderam as dinâmicas demográficas que estavam a pressionar o SNS. Não perceberam que ter mais médicos de família era um meio e não um fim.

Daqui a uns meses, superada esta crise, não poderemos deixar que se escondam atrás de um micrométrico vírus para justificar o que não fizeram quando o deviam ter feito. Não, em termos da política de saúde nem será a condução da crise COVID-19 o mais importante para discutir, mesmo que esta esteja ser a possível. E fazer o possível, dentro de um contexto estrutural que à partida era medíocre, está muito longe de ser “exemplar”. Fazer o que se pode, em situações de dificuldade extrema, nem sequer é necessariamente igual a fazer o suficiente. Depois da pandemia, o que nos importará rever será toda a situação em que o SNS estava em dezembro de 2019, as estruturas vetustas, os edifícios por construir, o equipamento que não havia, o comando pífio, a incapacidade de competir com salários internacionais, o miserabilismo, a incapacidade de integrar todo o sistema de saúde, a ausência de estratégia continuada para lá das legislaturas e a falta de liderança política. E que tudo isso seja matéria de reflexão para quem nos vier a governar depois.

O superavit de 2019 é uma enorme mentira política e social. É uma realidade matemática com um preço elevadíssimo que estamos agora a pagar da pior maneira. A afirmação de dia 26 deste mês, atribuída ao Dr. Centeno, de que “nunca estivemos tão bem preparados como agora” só pode ser uma ironia de péssimo gosto, uma inconsciência completa ou falta de vergonha. Depois de umas semanas em que o governo procurou ter juízo e contenção nas afirmações lá regressámos à insensatez da demagogia desbragada. Primeiro foi o Dr. António Costa com “ainda não faltou e não vai faltar nada” e logo de seguida foi o Ministro das Finanças a lembrar o dinheiro que diz ter posto no SNS. Foi um exercício de lavar mãos, de fugir das responsabilidades de atirar culpas para outros, em última análise para os profissionais da saúde. Foi miserável. Não nos interessam os milhões que o Dr. Centeno “deu” à saúde. Interessa-nos os hospitais que ainda não foram feitos, os equipamentos que faltam e os recursos humanos insuficientes. Sentimo-lo todos os dias.

Termino com uma palavra de saudade e homenagem ao Dr. João Freire. Um Senhor. O pesar pelo seu falecimento precoce e inesperado não se descreve. À sua família deixo as minhas condolências. O IPO de Lisboa ficou mais pobre. Mas também pela memória do João saberemos resistir e continuaremos, como pudermos e enquanto nos deixarem, a cuidar de doentes. A fazer o que de melhor fazemos.

Fernando Leal da Costa