– A mesa nunca pareceu tão bela. Velas acesas, pratos de fino recorte – louça chinesa, a preferida da Edite -, o faqueiro de prata genuína. Flores, o nosso arranjo floral de todos os anos, a que os miúdos acham tanta graça. A árvore a um canto da sala, encimada pela estrela vermelha, gasta pelo uso, e a lareira acesa, mais um Natal, um Natal novo, o mesmo de sempre. Mas não é o mesmo de sempre.

– “pai, este ano não podemos ir aí, mas pensamos em ti”.

– A Edite morreu há três anos. Uma vida de cumplicidade, sem hiatos nem separações, quatro filhos, tantas memórias. Os últimos tempos, ambos reformados, passámo-los a preparar as ocasiões em que os miúdos nos vinham visitar: pelos anos da mãe, os meus, o Natal. E eles vinham sempre, até o André, a viver em Londres com a mulher, uma vez apanhou o avião de manhã e voltou na manhã seguinte cedo, mas não falhou o dia dos anos da Edite, até a Lena, a trocar turnos e a pedir favores, veio sempre, e o pequeno Martim, mesmo a fazer o doutoramento em Berlim veio sempre, e a Luísa, a minha Luísa, a filha querida do pai, diziam os outros, veio sempre, nunca falhou. Vinham sempre. Nunca falhavam. Mas isso era dantes.

– “pai, o teu skype funciona?, estou farto de tentar falar contigo mas desde que a mãe morreu é muito mais difícil, nunca estás on-line, que se passa pai?”

– Logo no primeiro Natal o André desculpou-se, com a mulher adoentada não podia viajar, brindámos ao lugar vazio, ao deles e ao da Edite, mas a ela brindava eu todos os dias em pensamento, sentado à mesa sozinho recordava-a, bela como uma virgem de botticelli, plena de melancólica graça, a face rosada e o sorriso, aquele sorriso que fazia quando dizia, pouco antes deles chegarem, “estão a chegar”, as mesmas palavras sempre, ela dizia “estão a chegar” e o meu coração cansado ressoava dentro de mim qual sino da boa nova.

– “pai, paizinho, este Natal o Roberto convidou-me para uma viagem à Islândia, estou tão excitada, tenho pena de não passar a consoada contigo mas os manos vão, fica bem paizinho, ficas não ficas?”; fico, pensei, aquele Roberto parecia bom rapaz, embora não fosse suficiente para a Luísa, eu achava que nunca ninguém seria suficientemente bom para a minha Luísa.

– No segundo ano a Helena ficou a trabalhar no hospital, o André voltou a não poder vir, desta vez conteve-se nas explicações, “também não vai dar este ano, fica para o próximo pai, tem um grande Natal”, um grande Natal, pensei a ler o e-mail, desde que não seja um Natal grande, longo, como eram os de outrora mas os de outrora quanto mais demorados mais felizes eram, agora não o suportaria, e a minha Luísa também faltou, outra viagem qualquer, só o Martim veio, e trouxe a noiva, foi um jantar simpático, trocámos brindes à mãe – a ti Edite, isto não é vida mas continuo, pelos nossos filhos, por ti meu amor -, abrimos os presentes (recebi uma fotografia dos seis, de tempos felizes) e depois eles despediram-se, iam visitar uns amigos, trocar lembranças para outro lado, adeus pai; e foi bom assim, ainda era cedo, deitei-me cedo, sonhei contigo. Tive mais tempo para sonhar contigo.

– “Pai, este ano passo a consoada com os meus sogros, bom Natal pai”. “Pai, para o próximo ano está prometido”. “Paizinho, que pena não poder estar contigo na noite de Natal”. “Querido pai, tem um Natal feliz, penso em ti”.

– A mesa nunca pareceu tão bela. Velas acesas, pratos de fino recorte – louça chinesa, a preferida da Edite -, o faqueiro de prata genuína. Flores, o nosso arranjo floral de todos os anos, a que os miúdos acham tanta graça. A árvore a um canto da sala, encimada pela estrela vermelha, gasta pelo uso, e a lareira acesa, mais um Natal, um Natal novo, o mesmo de sempre.

– Este ano não veio ninguém.
Ps. Esta crónica é um plágio descarado.
O pequeno filme explodiu no youtube como fogo em pradaria seca. Um pai abandonado pelos filhos senta-se sozinho à mesa de Natal. Uma breve cena no cemitério – com saudades, arrependimento e tristeza – e depois os filhos a chegar à casa paterna onde está a mesa posta e as velas a arder. O espanto é de rastilho curto, pois de uma sala adjacente chega o pai, vivo, ainda vivo. E explica: “de que outro modo os poderia trazer aqui?”. O filme acaba com um jantar alegre, o espírito reencontrado dos tempos felizes de outrora.

Porque é que um filme destes – mandado fazer por uma cadeia de supermercados alemã – se torna viral? E se alguns podem questionar-se sobre a aceitabilidade da simulação da própria morte pelo pai, eu revejo as imagens do velho a surgir na sala das velas acesas e o espanto – a estupefacção – na cara dos filhos: alquebrado, o pai abre as mãos como que a pedir desculpa, pede desculpa não do que fez mas de estar vivo, perdoem-me não ter morrido, diz, silencioso. Perdoem não termos morrido, suplicam tantos milhares de velhos das nossas cidades, ansiosos por um carinho dos filhos, uma palavra, uma visita, tantos velhos e velhas fechados em casa, em lares, mortos-vivos sem saída nem esperança. Sem esperança nem saída.

Perdoem-me por estar vivo…

E porque é assim? Vivemos vidas apressadas sem disponibilidade nem vagar, corremos de um fim para outro como se houvesse uma meta que não fosse, afinal e simplesmente, também, o ponto da saída – desta vida, do Mundo. Os velhos estão a chegar lá, nós lá viremos a chegar. Acreditamos, neste tempo da pressa, viver para sempre. Acreditamos, neste tempo do triunfo do infinitamente pequeno, que as tecnologias são sucedâneos da presença física, que chips, bateria e cristais líquidos substituem a voz humana e um abraço quente. Abraçamos os nossos i-pads, os nossos i-phones, com o mesmo carinho com que, recordamos ainda (vagamente), os nossos pais nos aconchegavam, um beijo da mãe, dorme bem filho. Não há nada que uma app não faça, pensa o jovem entusiasmado, enquanto fecha um livro que não chegou a abrir…

Afiançam-nos que a velhice é um lugar sem remédio. Que velhos são os outros. Que os pais perdem a sensibilidade com o passar dos anos e já nem dão pela nossa falta nem precisam do nosso carinho. Disseram-nos tantas mentiras.

No filme que avassala o youtube, o velho conseguiu juntar os filhos. Um Natal, um dia feliz. Como será o ano seguinte? Suspeito que não haverá ano seguinte para ele: como na vida real, os filhos não virão. E na vida real ninguém encena a própria morte, morre mesmo.

Chegados a este ponto, perguntarão os leitores se valia a pena voltar ao tema da solidão e da velhice – na esteira de “os horríveis velhos” – quando há coisas tão mais importantes e actuais, como o governo PS, a ameaça terrorista, a guerra da segunda circular ou o Novo Banco. Vale a pena, digo eu. É Natal, digo eu, quando as dores do abandono e da indiferença mais se sentem. E, na verdade, poucos temas são mais importantes do que este. Digo eu.