Paradise Resort. O letreiro anunciava o destino, ao qual cheguei ia a manhã a meio e o sol apenas prometia rigores para mais tarde. Saí do carro seguido da mulher e filhos e entrei por uma porta branca encimada pelos dizeres Reception. Dirigi-me à recepcionista, que me recebeu com um sonoro “good morning, sir, can I help you?”. Respondi em português (são hábitos), pediu desculpa, “não tem nada ar de português”, com uma pronúncia britânica.

Informou-me sobre a localização da casa que alugara, onde ficava a “swimming pool”, o “gym” e todas as comodidades próprias de um “resort” daquele calibre (que o custo justificava). Ficámos também a saber qual a praia mais próxima, e da existência de uma concessão do “resort”, onde serviam pratos pequenos e bebidas alcoólicas exóticas. Fomos deixar as malas à nossa nova casa – de uma semana – e corremos para a piscina. Quase todas as cadeiras e chapéus-de-sol estavam ocupadas. Enquanto aguardávamos que um simpático empregado iraquiano descortinasse um poiso para os nossos corpos cansados, íamos escutando os muitos idiomas que por ali se faziam ouvir, a maioria de ressonância anglo-saxónica, mas também muita idiossincrasia eslava, espanhola, francesa e alemã.

Apontei aos miúdos um aviso “caution, pool not surveyed” e disse-lhes que significava “piscina não vigiada”: nada de mergulhos nem brincadeiras perigosas, como amonas e lutas dentro de água. O serviço de restauração encomendado directamente permitiu-nos manter o poiso sem nos deslocarmos ao bar da piscina, sempre atendidos com gentileza e prontidão pela Alicia, uma sul-americana de um país cujo nome não percebi. O seu portunhol era facilmente perceptível, pelo que não tivemos dificuldade em nos fazermos entender.

Nessa noite jantámos no Mister Meat, um reputado restaurante da região. Os empregados falavam português – apesar do inicial e inevitável “’night sir, have a reservation?” -, mas eram todos proficientes no idioma de Shakespeare, o que lhes permitia fluir com tranquilidade entre as mesas repletas de súbditos de Sua Majestade, e mais gente de outras proveniências incapaz de se expressar na língua de Camões. Um pequeno incidente ocorreu quando uma senhora, britânica a julgar pela tez avermelhada e o sotaque bem definido, se dirigiu aos meus filhos aos gritos “get out, the place is full of vermin and nobody cares”. E perante a expressão surpreendida dos miúdos (surpreendidos estávamos todos, confesso), acrescentou “It is dangerous for your health, I am a doctor, I know”, antes de seguir desenfreada para o estacionamento, não voltando a ser vista. Os empregados explicaram-nos que por vezes algumas formigas se passeavam pelo chão, o que me pareceu natural dado estarmos numa esplanada ao ar livre e com árvores entre as mesas; mas asseguraram que nunca ninguém tinha sido atacado por esquadrões de insectos e que a carne chegava livre de presenças indesejáveis. Expliquei o assunto aos meus filhos, que passaram o jantar em busca de formigas gigantes com pouco sucesso – e para sua decepção.

A zona da praia onde ficámos, na concessão do aldeamento, era desafogada. Um funcionário destinou-nos um local na primeira fila e entregou-nos um menu em inglês com as bebidas e comidas que poderíamos encomendar; perguntei-lhe se tinha exemplares em português, mas estavam todos indisponíveis no momento pois havia pelo menos 10 toldos com portugueses.

Os dias passaram-se com indesejável rapidez. Uma noite deixámos as crianças ao cuidado de uma “baby-sitter” providenciada pelo resort e fomos à cidade. Antes de sairmos, interroguei a rapariga: irlandesa, falava inglês e gaélico, idioma que nenhum dos meus filhos ainda tinha aprendido. Falou-me da sua experiência e, quanto à compreensão, sabia as palavras necessárias em português, como não, sim, cama, silêncio, televisão, pelo que podíamos ir descansados. Lá fomos, nem por isso muito descansados, mas tudo acabaria bem.

Tínhamos reserva, mas um grupo de alegres foliões, aliás folionas, ocupava uma quantidade suficiente de mesas para que nenhuma estivesse ainda disponível para o grupo das 22h. Estavam manifestamente numa despedida de solteira, pois sucediam-se as libações em honra da Susan, que se ia casar com o Steve – foi fácil perceber os nomes, tantas vezes pronunciados -, a cuja felicidade as amigas ali presentes brindavam. Acabámos a jantar já bem perto das onze, quando finalmente as ladies deixaram a mesa, a cambalear com ar feliz.  

Fomos de seguida a um bar repleto de foliões barulhentos, a falar um inglês incompreensível. A minha mulher, que viveu no Reino Unido, disse-me que estavam numa espécie de competição de “cockney rhyming slang”, a língua secreta de Londres, feita de expressões que significam palavras que rimam com elas. Achei aquilo divertido e, enquanto saboreava um gin – “um gin, por favor?”, “sorry?”, “a gin, please”, “ah, ok” -, apurei o ouvido. “Is your trouble and strife with you?”, perguntava um. “Nah, she did not want to come, can you adam and eve it?”, “go figure gooseberry pudding”. Como a minha mulher encolhesse os ombros, perguntei-lhes e acederam simpaticamente a elucidar-me em inglês clássico: “trouble and strife” significa “wife”, “adam and eve” “believe” e “goseberry pudding” “woman”… A mulher não quis vir, vá-se lá perceber as mulheres. Pois. Aprendi outras coisas com os meus novos amigos cockney, um deles um genuíno motorista de táxi londrino, antes de regressarmos a casa. Tentei replicar o processo em português, mas pareceu-me um pouco ridículo.  

Já perto do final das férias, num fim-de-semana, o meu filho mais novo adoeceu com febre alta e pontos brancos na garganta. Antibióticos, receitei, mas não tínhamos receita. Com tudo fechado, sobrava a clínica do aldeamento vizinho, que tinha um número para urgências. Telefonámos e o médico predispôs-se a ver o miúdo de imediato. Lá fomos ter com ele – não receitou antibióticos, mas uma alternância entre 2 antipiréticos clássicos – e despediu-se com uma conta simpática de 150 euros por 10 minutos de consulta. “Thank you Dr. Smith”, agradeci com sinceridade, aliviado por não ser nada de grave. “You welcome, Sir” respondeu ele num tom de nobre inglês. Não resisti: “In the case I need something else, can I have your dog and bone?” (“dog and bone” significa “phone” em cockney rhyming slang). O Dr. Smith respondeu de imediato, nada surpreendido: “Certainly Sir”. E deu-me o número.

E assim se passaram as minhas férias com a família em Julho no Algarve. Parece que os portugueses chegaram em massa em Agosto. Espero que estejam a “enjoy” as “vacation”…

Post-scriptum: Gosto de turistas. O turismo é um bem necessário e nada tenho contra partilhar Lisboa e outras zonas do país com gente que aprecia o nosso país (são raras as excepções) e cá volta com gosto. Mas confesso que este ano me impressionou pela quantidade a presença de ingleses e o inglês falado e escrito, quase como primeira língua, em muitas partes do Algarve.