Estimados leitores

Perguntam muitos portugueses sobre a nossa participação nos Jogos Olímpicos: por que razão Portugal conquistou “apenas” uma medalha de bronze? Vozes avisadas comparam os JO ao cume de uma montanha, sendo a simples presença glória bastante, sem esquecer os vários diplomas ganhos por portugueses. Mas é legítimo perguntar por que motivo um país europeu com 10 milhões de pessoas, que acaba de conquistar o título europeu de futebol, termina em 78º lugar, atrás de países como o Azerbeijão, Geórgia ou Hungria. E até piorámos em relação a Londres, onde também vencemos uma medalha “apenas” … mas de prata.

Ficam agora as declarações politicamente correctas sobre a melhor participação portuguesa de sempre. Que os atletas se comportaram com brio, honrando as cores da bandeira, etc. Mas na boca de cada português resta o sabor amargo a expectativas frustradas, mesmo sendo verdade – é verdade – que eles deram o melhor de si. Esse não é o problema, claro. Nem começou agora. Portugal tem menos medalhas em todos os JO que Phelps. Temos saudade de Carlos Lopes a correr isolado para a medalha de ouro em LA; e de Rosa, Fernanda, Nelson, heróis nacionais improváveis. Ora se o problema não são os nossos jovens, qual é o problema?

Como os leitores sabem, passei este quente mês de Agosto a deambular pela História na minha máquina do tempo. E ao reflectir nos Jogos vieram-me à mente episódios históricos que testemunhei e parecem conter similitudes com a saga do desporto em Portugal. Ficam as duas últimas “estórias” de verão, mais amargas do que doces; dedico-as com carinho, amizade e orgulho aos portugueses que, ontem como hoje, nos representaram nas pistas, piscinas e ginásios, mas também nos campos de batalha da Europa. Honra lhes seja.

A quinta e sexta das seis “estórias” da História de Portugal, que completam as minhas crónicas de verão, são ambas sobre Portugal na Grande Guerra.

Ninguém queria a participação do nosso país na guerra, nem sequer os aliados. Tudo começou logo em 1914. Do exílio chegavam cartas de D. Manuel II a reclamar a entrada ao lado dos ingleses. Em Agosto de 1914, contudo, Londres ordenou a Portugal que mantivesse a não-beligerância. Com as forças armadas a meio da ponte entre o exército profissional e o miliciano, ficámos de fora… mas Afonso Costa nunca desistiu de entrar na guerra. Queria-se independente dos ingleses, assegurar as colónias, consolidar o poder republicano, melhorar até a economia. A guerra nos territórios africanos não lhe chegava.

A declaração alemã de guerra a Portugal ocorreu em 1916 quando, após várias manobras de Afonso Costa, Londres pediu que Portugal requisitasse as dezenas de navios alemães surtos em portos nacionais desde o início da guerra. Forças da Armada assaltaram as embarcações germânicas no Tejo e saudaram com 21 tiros de canhão. A esse propósito ouvi a seguinte conversa do chefe do governo: “Almirante, avancem os homens”, …, “sim, completamente armados”, …, “se for preciso distribuam umas coronhadas, disparem até, se alguém resistir”, … “no fim salvem com canhão à vitória”, “não se preocupe com os alemães, é problema meu”.

Conto-vos agora a primeira de duas “estórias”, lendo uma carta enviada pelo soldado Luís à namorada em vésperas de partida para a guerra, erros corrigidos e ortografia actualizada (o soldado Luís tinha apenas a 4ª classe): “Venho de regressar da “licença funerária”. Foi uma semana chata, embora tenha apanhado algumas bebedeiras com os colegas. Cheguei a pensar que não teríamos esta licença, sobretudo desde que nos recusámos a embarcar para Lisboa. Escrevi-te sobre isso, não escrevi? Andámos uns dias aqui em Penafiel quase ao deus dará, sem oficiais à vista. Ninguém queria ir para Lisboa sabendo que a seguir nos mandavam para a guerra, essa é que é essa. (…) Pior foi a chegada da guarda: fosse por estarmos fartos de mandar em nós próprios e sem objectivos, fosse por medo puro e simples, desistimos rapidamente. Só uma meia dúzia ainda pegou nas espingardas, o resto manteve-se nas barracas. Agora, estamos à espera de embarcar e ainda tenho a esperança de te conseguir ver. Se não, só lá para o ano que vem (…)”. O soldado Luís, participante no motim de Penafiel de 1 de Julho de 1917, embarcou para França no mês seguinte. Integraram-no na brigada de Leiria, batalhão 7, no seguimento da política de disseminar os revoltosos por diferentes unidades. E era bem necessária essa política: desorganizados, entregues a si próprios pelos oficiais, mal equipados, os soldados portugueses subornaram as juntas médicas para escapar à mobilização; fugiram aos molhes para Espanha; revoltaram-se!

Quantas vezes? Só para terem uma ideia: primeira insubordinação na Covilhã, em Junho de 1916, com centenas de soldados do regimento 21 enviados para África; mais uma dúzia ainda em Portugal, em Lisboa, Leiria, Santarém, a culminar em finais de 1917 com o motim de infantaria 33 de Lagos, que ainda veio a ser protagonista do golpe de Sidónio. A bagunça prossegue em França, com deserções, ausências sem licença, incluindo a execução por traição do soldado João de Almeida, para cujo pelotão de execução os oficiais tiveram dificuldade em encontrar soldados.

E muito mais, até quase ao final da guerra: em 15 de Outubro de 1918, o 6º batalhão de infantaria insubordinou-se em Crox Marmuse (França); os soldados não obedeceram às ordens de formatura, assaltaram arrecadações, roubaram armas e munições e entrincheiraram-se no aquartelamento. Cercados num bosque, foram dominados pelo 4º batalhão de infantaria, após um verdadeiro combate que incluiu tiro de metralhadora, mortos, feridos, presos e desertores.

A revolta durou 5 dias. Escreveu Luís, agora cabo após 30 meses de dura aprendizagem, à namorada: “Minha querida, cuido que estejas bem com teus pais e sempre crente no meu regresso, que está para breve. A guerra parece estar a acabar, mas continuam os problemas, com muita soldadagem a exigir voltar a Portugal. Não os censuro. Está tudo farto de estar aqui e de ver morrer os camaradas. Os oficiais continuam a sujar pouco as botas. Olha, pior do que La Lys, em que nem respirámos, são as sucessivas insubordinações. Às vezes até parece que os nossos maiores inimigos são portugueses e não alemães. Se calhar já trocámos mais tiros uns com os outros do que com os boches. Uma loucura. Ontem, no bosque de Pacault, os nossos metralharam-se e mataram-se às dezenas. Portugueses contra portugueses, percebes? Uma loucura. Beijo-te a aguardar a hora de te ver”. O soldado Luís viveu uma vida longa e feliz, casado com a prometida, qual Penélope à sua espera longos anos.

A terminar as “estórias” de verão, uma entrevista feita em 1960 por um vespertino lisboeta a Jaime Cortesão, cuja publicação foi impedido pela censura do Estado novo. Cortesão participou na 1ª guerra mundial, integrando um grupo de oficiais conhecidos como “jovens turcos”. Assisti à entrevista num fim de tarde de Lisboa, o sol de primavera batia na vidraça. Cortesão morreria 6 meses mais tarde.

“R. Precisávamos de entrar na guerra. Se ficássemos de fora, a humilhação converter-se-ia em desastre e nenhum orgulho republicano serviria de unguento. Os monárquicos regressariam e teríamos voltado atrás no tempo. Portugal precisava de uma nova saga e todos nós, os depois chamados de jovens turcos, ansiávamos pela oportunidade. P: Mas estávamos preparados? R. Não. Portugal era então, e é ainda, uma obstrução. Obstruímos o Mundo. P. Escreveu isso… R. Nas minhas memórias da guerra. Escrevi-nos: entorpecidos como Nação. Dormem, silenciosos, os chefes. P: Mas a arraia miúda tem relâmpagos de intuição secreta… R. Excelente, vejo que me leu bem; e mais: da guerra salvou-se o soldado, todos os mais falharam (…) P. Lamenta ter regressado a Portugal? R. Eu sou de cá. Amo tudo e todos, tanto a si como aos que fecharam as portas em Caxias comigo dentro. P. Ama os algozes? R. Ensinam-nos o essencial: a liberdade, que amo mais que tudo. Saber que somos, se quisermos, livres… mas não em silêncio. E com custos… P. É verdade que viu Afonso Costa a cavalo? R. O Afonso Costa assistiu à grande parada das tropas formadas em Tancos, a 22 de Junho de 1916, montado a cavalo… foi hilariante, motivo de chacota nas ruas de Lisboa. Mas nós gozamos sempre com tudo, nada levamos a sério, sobretudo o que é mais sério. P. E isso é bom? R. Isso é excelente, ou sê-lo-ia, se conseguíssemos distinguir o momento do gozo do da acção (…)”.

Ficam as palavras desencantadas de Cortesão e terminam por aqui as “estórias”, mas não a análise. A Portugal, na 1ª Guerra como nos JO, não faltam homens e mulheres competentes, solidários e sofredores, vencedores como Telma Monteiro ou o soldado Milhões. Mas falta organização, preparação, investimento; dinheiro, claro. Do orçamento do Comité Olímpico de Portugal para o programa Rio 2016 constava uma verba de 4,55 milhões de euros, a mesma destinada aos dois ciclos olímpicos seguintes. Comparemo-lo com o Reino Unido (ao acaso…):

Em 1994, John Major decidiu investir parte dos rendimentos da Lotaria Nacional no desporto, criando um fluxo financeiro sem precedentes: dos cerca de 6 milhões € anuais antes de Atlanta (em cujos Jogos o país venceu… uma medalha de ouro), o financiamento público do desporto olímpico britânico subiu para 400 milhões € entre 2013 e 2017; acrescem substanciais apoios privados. Ao mesmo tempo, o financiamento concentrou-se em desportos com reais hipóteses de vencer. Resultado? 67 medalhas, incluindo 27 de ouro, tornando o RU a segunda potência olímpica logo após os EUA. Como disse Lizz Nicholl, CEO do UK Sport, entidade pública responsável pela promoção do desporto britânico: “o financiamento vale o seu peso em ouro”.

Portugal é um país de futebol e o futebol português, não sendo rico (o que só seria se não tivesse o nível de endividamento que tem), move milhares de milhões de euros. Não deveria vir daí uma parte do necessário? E os valores que alimentam as várias formas de jogo (lotarias, euromilhões, etc.) não podem ser revistos, redistribuindo as receitas de modo a financiar com reais possibilidades de sucesso os nossos atletas? E que política pública consistente e credível, nomeadamente na conciliação de estudos com prática desportiva, permitirá atrair o sector privado para o investimento em atletas que “vendam” e, por isso, dêem lucro ao investimento realizado (patrocínios, publicidade, apoio dos clubes, etc)? Há muito a fazer, mas não basta falar, discursar, prometer: há, simplesmente, que o fazer.

La Lys, Rio de Janeiro, cem anos de distância, um Mundo de diferenças. Ou não?