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Em Julho, a propósito do acidente com o carro do Ministro Eduardo Cabrita, escrevi isto: “É óbvio que Eduardo Cabrita não tem culpa do acidente. Não era ele que ia a conduzir, ocupava apenas o lugar do borrifa no morto. Ninguém lhe pode levar a mal a falta de marcas de travagem na estrada. O que as pessoas estranham é a falta de marcas de travagem nas cuecas de Cabrita. Isso, sim. O seu carro passa uma pessoa a ferro e Eduardo Cabrita nem vacila, mantém o controle absoluto sobre a situação e sobre o esfíncter. Está-se a marimbar para o cadáver. Não há vestígios de preocupação. Nem na roupa interior, nem no comunicado oficial”.

Não foi um dos meus melhores momentos, admito. Pressionado por falta de tempo e de imaginação (perífrase para “pouco profissionalismo”), não resisti a recorrer à derradeira ferramenta do humorista, a falácia reductio ad cocó. Quando não se tem nada de engraçado para dizer sobre um tema, fazem-se chistes com fezes. Funciona sempre, principalmente com bêbados e com crianças. Com crianças bêbadas, é curioso, não faz tanto sucesso.

Não voltei a pensar nisso, até agora. Quem havia de dizer que, passados 4 meses, a GNR, talvez padecendo da mesma preguiça que me assola, traria a matéria fecal para a frente da investigação? Que pontaria. Sinto-me um Marques Mendes do excremento. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, este caso ia dar merda.

Segundo a notícia, “uma das teses que os militares não têm largado é a de que o trabalhador saiu da berma direita, onde estava com os restantes colegas a fazer limpezas, atravessou a estrada e saltou para dentro do separador central não para desempenhar as suas funções, mas para fazer necessidades. Seria colhido quando estava a regressar à berma”.

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Pelos vistos, quando uma pessoa vai à casa de banho, não está a trabalhar. Imagino que esta forma de calcular o tempo de trabalho vá poupar muito dinheiro à Segurança Social. Trabalhadores que se queiram reformar depois de 40 anos de descontos, ou levam um corte na pensão, ou esperam dois ou três anos, por causa dos xixis acumulados.

Esta tese da GNR tem subentendido o pressuposto que, se a vítima é atropelada fora do desempenho de funções, não faz mal o carro do Ministro ir em excesso de velocidade. Parece-me justo. Diria mesmo mais: se a vítima tiver ido fazer cocó, o excesso de velocidade é ainda mais justificado. Sempre que viajo numa auto-estrada e passo por uma ETAR, acelero para o pivete desaparecer mais depressa. Deve ter sido isso que se passou com o carro de Eduardo Cabrita. Aquela zona do caminho cheirava a caca e o motorista carregou no pedal, para não ofender a dignidade olfactiva de um Ministro da Nação.

É importante chegar-se ao fundo desta questão. Espero que a GNR tenha os seus melhores narizes a trabalhar nisto. Com sorte, antes de sabermos a que velocidade circulava o carro do Ministro, vamos descobrir o que é que Nuno Santos comeu nesse dia ao almoço. Ainda não se sabe se Nuno Santos fez cocó, mas podemos afirmar com segurança que Eduardo Cabrita se está a cagar.

Trata-se de uma óptima iniciativa, mas podiam ir ainda mais longe. Além de papel higiénico, também deviam investigar kleenexes usados. Para perceber se Nuno Santos estaria constipado e se poderia, eventualmente, ter espirrado fora do desempenho das funções. Toda a gente sabe que, ao espirrarmos, fechamos os olhos o tempo suficiente para sermos apanhados de surpresa por um carro que vem a 230 km/h. À atenção da Brigada de Trânsito Intestinal.

Aliás, quero aqui mandar um forte abraço aos militares destacados para esta missão. Como pai que já esmiuçou dúzias de fraldas à procura de indícios de supositório no meio do cocó do bebé, para saber se lhe tenho de enfiar outro, sei bem que é tarefa minuciosa e fedorenta. Mas com o objectivo louvável de resguardar um rabinho. Eu o do meu filho, os GNR o de Cabrita.

Esta investigação ainda vai fazer com que a seguradora não indemnize a família de Nuno Santos. Se isso acontecer, o mínimo era que Eduardo Cabrita estendesse a sua apólice à viúva e aos filhos. Não sei qual é a companhia, mas tem a melhor cobertura: António Costa. Não há dúvida que protege Cabrita de todos os sinistros.