Os dados publicados pela Agência Federal de Estatística do Estado da Rússia (Rosstat) não deixam dúvidas: em 2015, 3,1 milhões de russos aumentaram as fileiras dos pobres, que já eram de 16,1 milhões de pessoas em 2014, ou seja, subiram para 19,2 milhões (de 11,2% para 13,4% da população).

Em 2006, o número de pessoas que vivia abaixo do nível da pobreza era de 21,6 milhões e foi diminuindo até 2013 (15,5 milhões), mas agora volta a subir rapidamente.

O desemprego ronda os 4,429 milhões de pessoas. Por enquanto, pode-se considerar um nível baixo (5,8% da população activa), mas tende também a aumentar rapidamente.

Segundo as mesmas estatísticas, o rendimento médio da população é de 35 586 rublos, ou seja, menos de 500 euros. O rendimento mensal mínimo é de cerca de 10 mil rublos (177 euros).

Estes dados são uma prova de que a situação económica e social da Rússia continua a degradar-se e assim continuará até que o preço do petróleo volte a subir. Quando o preço dos hidrocarbonetos estava em alturas impensáveis, sobravam migalhas para tirar alguns milhões da pobreza na Rússia e permitir até a formação de uma pequena classe média.

Agora, o Kremlin vê-se em dificuldades para pagar as suas promessas a nível interno e as suas aventuras na política externa.

Mas será que uma deterioração da situação na Rússia poderá provocar algo de semelhante ao que se passa no Brasil? Não, e isto por várias razões.

É verdade que as dimensões da corrupção russa não são menores do que a brasileira e essa é uma das principais causas dos problemas sociais e económicos em ambos os países. Porém, na Rússia não existe, nem se prevê que apareça um juiz capaz de acusar o Presidente ou a sua corte mais próxima de corrupção ou de lavagens e fugas de capitais. Alexei Navalni é um político da oposição que publica na Internet quase diariamente casos de corrupção nas mais altas esferas do poder, mas cai tudo em saco roto. A resposta do Kremlin é abrir processos-crime contra ele e outros membros da oposição a fim de os desacreditar. Outros são assassinados de formas nunca esclarecidas.

Além disso, na Rússia não existem órgãos de informação influentes, principalmente cadeias de televisão, independentes do poder político. As que existem não se cansam de fazer propaganda da alta popularidade do Presidente Putin no país e das “vitórias” dos militares e diplomatas russos no campo internacional: Crimeia/Ucrânia e Síria.

Não se pode também desprezar o facto de a propaganda oficial lançar para cima dos “nacional-traidores” (termo utilizado por Putin) e de “forças externas” (CIA, NATO, Obama, etc.) a responsabilidade das dificuldades que o país atravessa.

Isto contribui para que na Rússia não exista uma sólida opinião pública, como acontece no Brasil, mais difícil de ser manobrada. Mas, como dizem os russos, eles demoram a selar o cavalo, mas depois não há quem os apanhe.