O debate do estado da Nação fez jus à tradição e, mais uma vez, debruçou-se prioritariamente sobre o estado da governação. Da atual e da próxima. Uma situação altamente previsível face aos desenvolvimentos recentes.

De facto, enquanto Santos Silva, a segunda figura do Governo de Costa, anunciou a inevitabilidade da morte da geringonça ao exigir um maior compromisso europeu por parte da CDU e do BE, o PCP assinou a respetiva certidão de óbito ao som da música do Padrinho.

Verdade que o Bloco deu mostras da sua sede de Poder ao titubear entre um discurso que cantava o passivo costista e outro que ainda anunciava amanhãs geringonciais que cantam, ainda que só a duas vozes. Uma solução que Costa não coloca de lado, embora na esperança de não recorrer a ela.

Face ao exposto, o debate sobre o estado da Nação só poderia servir para marcar terreno. O PS sabe que já vai distante o tempo da euforia resultante da transformação de uma derrota nas urnas numa vitória parlamentar. Não ignora que Costa conduz, praticamente desde o início, uma geringonça de gestão. O caderno de encargos que o PCP e o BE o obrigaram a assinar assim exigiu.

Por isso, falar da reforma da segurança social é proibido. Discutir as causas do estado a que chegou o Serviço Nacional de Saúde assume-se como impossibilidade, tanto mais que a discussão traria para a praça pública a questão das 35 horas semanais na função pública. Uma matéria acima de qualquer questionamento na visão dos parceiros de esquerda. A exemplo de tudo o que diga respeito a alterações da lei laboral.

Este cenário poderia constituir mais do que uma preocupação para António Costa. Deveria significar que não demoraria a ser apeado da geringonça até porque, malgrado um estado de graça que só o sorriso pode explicar, as limitações governamentais não param de dar à costa.

Daí o regresso da questão de Tancos. Um quartel a que, afinal, ainda não regressou todo o armamento roubado. Por isso, a dúvida que envolve o processo de contratação dos serviços aéreos de combate aos fogos. Sem contar com o facto de o ministro da Educação não saber como resolver o problema da contagem de tempo dos professores. Um erro primário. Prometer antes de fazer contas. Mais a mais num país onde o ministro das Finanças emigrou, embora continue a gerir a pasta do Orçamento.

Como se constata, não foi preciso esperar pelo abrandamento da economia europeia para se perceber que a pretensa recuperação da economia portuguesa não passava de uma falácia temporária.

Porém, no meio deste clima de desinvestimento público na saúde, na educação e nos transportes, uma sondagem acenou ao PS com a probabilidade de uma maioria absoluta. Uma hipótese que poderia levantar dúvidas sobre a tendência masoquista e a sanidade mental do eleitorado.

Todavia, talvez se imponha uma visão mais realista. Aquela que tem em conta dois elementos.

Primeiro, a indefinição cinzentista/colaboracionista a que Rio parece condenar o PSD. O líder de um partido que quer ser alternativa de governo tem de liderar a oposição. Não se pode dar ao luxo de distanciamentos e de estados de humor. Marcas de uma pseudo superioridade que pode ter colhido a nível local, mas se revela contraproducente a nível nacional. Basta analisar as sondagens.

Segundo, o receio de que o marasmo geringoncial paralise o país. Uma forma de dizer que, face à inexistência de alternativas credíveis, mais vale um PS só do que mal acompanhado.

Afinal, o povo é um eterno semeador de ilusões! Ilusões que, como decorre da vida habitual, não demoram a tornar-se em desilusões.

Professor de Ciência Política