O clube ‘Dar e Receber’, que iniciei na minha escola, faz 10 anos. No início, havia apenas a ideia simples do voluntariado semanal. Mas rapidamente cresceu para todas as escolas do Agrupamento e tornou-se uma fonte de boa energia, com muita ajuda e com uma rede de parceiros em quem acreditamos. Que felicidade, sempre que mais alguém se junta ao clube! Mais alunos, professores, assistentes operacionais, pais, amigos.

Quando parece que estamos a cair na rotina, acontecem coisas lindas que nos enchem de vontade de continuarmos. Há dois anos, aderimos a um projeto, Living Peace International, pois acreditamos que a paz começa em cada um de nós e porque o seu percursor, Carlos Palma, cilindra-nos com a sua experiência de guerra e de esperança. No ano seguinte, a coordenadora do pré-escolar pediu para estar alguém do projeto na primeira reunião do ano, porque queriam trabalhar a paz. Como não ficar feliz quando, no final do 1º período, já se notavam mudanças nas crianças?

Em Março, fui contactada por dois pais de meninos do pré-escolar, que no ano anterior tinham participado na caminhada pela paz, que vão fazer de bicicleta a estrada n.º 2, do Norte ao Sul, com o objetivo de levar uma mensagem de paz e recolher material para ajudar uma causa. Tudo para dar o exemplo aos seus filhos e a todos os coleguinhas. Como não apoiar e perceber que só é preciso começar?

No decorrer da campanha para o Banco de Leite do Frei Ventura, fui a outro centro escolar recolher o material. Tive a oportunidade de falar com os meninos das 3 salas do pré-escolar, ouvir as suas canções e, mais importante, saber pela educadora que, dentro do projeto Living Peace, estas crianças apesar de pequenas fazem diariamente o minuto de silêncio pelas crianças que estão em países de guerra e vivem a paz, lançando o dado da paz. Saí dali com a certeza que estamos a contribuir para um mundo melhor e o coração quase a rebentar.

Recentemente, a coordenadora de um centro escolar do nosso agrupamento pediu para ir com os nossos amigos mais velhos do centro paroquial cantar para os 200 alunos. Que momento tão lindo e tão importante para os mais velhos e para as crianças. Vamos com certeza fazer isto mais vezes. Como não ficar de coração cheio?

Eu acredito que, como professores, temos uma profissão única. E ver o sorriso estampado naquelas crianças irresistíveis deu-me uma energia extra para fazer mais e melhor. Sempre que um colega vem ter comigo e partilha que a sua turma está empenhada numa campanha, tenho a certeza que valeu a pena começar.

Quando fui nomeada para o Global Teacher Prize Portugal 2019, diziam-me que este projeto só era possível por eu estar à frente. Não tenho essa opinião. Acho que qualquer escola pode pegar neste projeto, desenvolvê-lo e começar a ver a bola de neve a crescer. Ainda acho mais. Este projeto pode ser implementado num prédio, numa rua, numa aldeia, numa vila ou numa empresa. Aliás, valeria ainda mais a pena ter escrito este artigo se alguém, depois de lê-lo, o imprimisse e o pusesse no placar da entrada do prédio, da empresa, da junta, com algo como: “às quintas, das 18 às 19 horas, voluntariamente ensino a tocar guitarra, ou ensino a trabalhar com o computador, ou ofereço-me para ir às compras para algum vizinho que não consiga”.

São estes pequenos gestos que se transformam em algo muito maior. Nestes 10 anos, graças a uma pequena ideia, tive a honra de conhecer muitas pessoas especiais. Sou grata porque recebi muitos mais do que dei. E escrever este texto sobre o clube ‘Dar e Receber’ só é possível porque, há um ano, colegas com um coração do tamanho do mundo fizeram em segredo uma candidatura ao Global Teacher Prize. Ao ter ficado nos 10 nomeados, ficou a certeza de que o futuro da educação passava obrigatoriamente pela solidariedade, voluntariado e pelo cuidar e estar atento ao outro. A nomeação por uma razão tão simples e tão bonita serviu-nos de força extra para acreditarmos que estamos no bom caminho.

Professora. Finalista do Global Teacher Prize Portugal 2019.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.