Cresçam e floresçam, danem-se para os outros se lhes der muito trabalho, culpem o Estado, o pai, a mãe, a escola ou o que for por decisões que são vossas, para depois lhes pedir ajuda logo a seguir, não leiam nada que demore mais de dois minutos, não se envolvam em coisa nenhuma nem percam tempo com isso a não ser que seja em vosso próprio benefício ou que o resto também o faça. Sobretudo, não pensem muito e façam mesmo o que lhes apetecer.

São muitos anos (décadas) assim. O resultado só podia ser este. Em tudo.

E esta primeira semana de Janeiro, a caminho da tempestade perfeita, mostra bem isso.

O problema, entre muitos outros, é a de uma geração que cresceu sem limites, dona de si própria e a quem nunca lhes foi negado nada. Que maioritariamente não pensa, age por instinto e a quem não lhes passa pela cabeça mudar de hábitos, porque “era o que faltava que agora não possa ir beber um copo, festejar os meus anos ou ter um Natal normal”. Que não cumpre regras, não tem qualquer respeito pela autoridade, incluindo a paterna (que, “by the way“, na maior parte das vezes, também não existe), fura quarentenas e tem horror à palavra sacrifício. Miúdos e não só. E que vota sem consciência alguma do que vai fazer. Que se revê numa elite que não o é, que vive numa bolha cujos interesses, esses sim, defende em detrimento de tudo o resto. A todos os níveis.

São muitos anos de desinvestimento na “coisa pública” em quase toda a sua dimensão. Se ainda vamos a tempo? Ouvindo a pobreza de ideias visíveis e bem exemplificativas da realidade nos debates presidenciais, diria que não; olhando para a resistência e capacidade de reinvenção de alguns, fora da esfera política directa, diria que talvez.

É essa a grande pergunta que nos devemos fazer. É de estrutura e não de conjuntura que falamos. Porque é que no Portugal democrático as assimetrias são e serão cada vez maiores e as pretensas elites são cada vez mais inexistentes, medíocres e incapazes de pensar num desígnio comum?  Em que parte da nossa vida, enquanto sociedade, ainda não se percebeu que o principal desígnio para Portugal nas próximas décadas tem de ser o da Educação? Até quando é que vamos continuar a (re)agir pelo medo e pela incapacidade de pensar por nós próprios? Até onde é que vamos deixar que mandem em nós tantas vezes sem o perceber? Onde está a capacidade de antecipação, que promove o agir que previne e não o mero reagir?

Ando a reler As Farpas do grande Ramalho Ortigão. “É unicamente pela acção, lenta mas definitiva, da influência das elites sobre a obtusidade das massas que as transformações se realizam. É pelo saneamento dos indivíduos que se consegue a saúde das colectividades. É pelo tratamento paciente, pacífico e melindroso da célula Família que se chega à reconstrução normal do organismo Estado. Tudo o mais que se maquine na esfera política (…) entre alguns ingénuos e inúmeros basbaques e numerosos aventureiros palavrosos e esfaimados, é advocacia, é chicana, é caciquismo, é foguetório. E maquinando sempre, dia após dia, de ilusão em ilusão nos foge o tempo.”

Talvez esteja aqui parte da resposta. E o tempo, esse, passa a correr.