Habituámo-nos a viver num mundo constantemente conectado em que, a todo o instante, criamos e, ao mesmo tempo, consumimos dados, a um ritmo sem precedentes, nomeadamente através das redes sociais, dos media e, num sentido mais lato, dos dispositivos móveis com que andamos sempre atrás. No período crítico em que nos encontramos, podemos e devemos fazer uso deste contexto para encontrar soluções originais que nos permitam enfrentar a realidade imposta pela pandemia. É certo que estamos a travar uma autêntica guerra contra um inimigo que é invisível, mas, na manga, temos uma arma secreta: os dados.

Para que os dados tenham valor é preciso analisá-los. Por sua vez, para que a análise seja eficaz é preciso que assente em três pilares fundamentais: primeiro, na aquisição dos dados relevantes; de seguida, nos modelos/algoritmos a que se recorre para obter as previsões pretendidas; e, por fim, na visualização dos resultados, com base na qual se podem depois tomar ações concretas.

Com este enquadramento em mente, consideremos alguns exemplos palpáveis de como a análise de dados pode contribuir para combater a pandemia do Covid-19 e, consequentemente, garantir a nossa segurança:

• Monitorização da localização de pessoas com elevada probabilidade de infeção (mesmo que sem confirmação) 

Assim que se sabe que uma pessoa está potencialmente infetada, é possível mobilizar os seus últimos dados de localização para averiguar, imediatamente e sem ambiguidades, onde esteve e, a partir daí, identificar novas cadeias de contágio que pode, eventualmente, ter criado. Isto facilitaria o mapeamento dos casos a ficar sob vigilância das autoridades de saúde. Hoje em dia, este esforço está a ser feito por questionário, o que é claramente insuficiente.

Na mesma linha de raciocínio, os dados de localização poderiam ainda ser utilizados para nos avisar caso estivéssemos a entrar num meio de transporte ou a aproximar-nos de um local público onde se soubesse que tinha estado alguém infetado recentemente, fazendo aparecer uma notificação a sugerir um caminho alternativo mais seguro.

Apesar das questões relacionadas com a proteção de dados dos cidadãos subjacentes, atendendo às circunstâncias extraordinárias que servem de pano de fundo, estas hipóteses já foram submetidas a empresas como a Apple e a Google numa carta aberta escrita por epidemiologistas, entusiastas tecnológicos e profissionais de saúde, pela relevância que teriam na contenção do Covid-19.

• Desenvolvimento de modelos de previsão de surtos por geografia 

Na semana passada, foi anunciada nos Estados Unidos uma comissão que reúne executivos de topo de grandes tecnológicas para estudar a utilização de dados reais para ajudar a prever a propagação do vírus em termos geográficos. Mais uma vez, este tópico está, naturalmente, a gerar debate devido ao facto de implicar a invasão da privacidade dos cidadãos. No entanto, para todos os efeitos, trata-se de dados que já são recolhidos por gigantes como a Apple e a Google, sendo que, agora, serviriam um propósito maior.

Esta previsão por geografia possibilitaria uma alocação dos profissionais de saúde (recursos escassos e incansáveis) proativa e não reativa, baseada nas zonas nas quais se estimasse que o número de casos viria a aumentar mais no futuro próximo.

Por outro lado, dados que ainda não são colecionados/armazenados, poderiam vir a ser úteis para informar a população e apaziguar tensões sociais. Atentemos em alguns exemplos do nosso novo dia a dia:

• Visualização em tempo real de dados relativos ao fornecimento de bens essenciais 

As corridas aos supermercados e as prateleiras de papel higiénico vazias tornaram-se imagens familiares. Em grande parte, tal deve-se ao medo que, de hoje para amanhã, deixemos de ter acesso a bens essenciais. Apesar das garantias dadas pelo Estado, se as grandes distribuidoras de bens essenciais disponibilizassem, em tempo real, dados acerca do stock, a população poderia ficar a par dos ciclos de abastecimento das lojas, evitando que o caos se instaurasse.

• Criação de um sistema de sinalização/acompanhamento de idosos em isolamento 

Perante o estado de emergência declarado, é importante assegurar que os idosos, um dos grupos mais fragilizados por este surto, têm à sua disposição mecanismos de apoio para solicitar ajuda com necessidades básicas, como alimentação. Num regime “peer to peer”, uma pessoa de cada prédio/bairro tomaria a iniciativa de obter dados acerca das situações sensíveis na sua proximidade, colocando-os num sistema/numa app, que seria a ponte com as plataformas de retalho, com o intuito de agilizar o processo de encomenda online para uma faixa etária tipicamente infoexcluída e que corre mais riscos saindo de casa para se abastecer.

Qualquer uma destas aplicações dos dados aborda problemas reais e urgentes e converter-se-ia em impactos tangíveis e significativos para a sociedade. Com este mote, nos últimos dias, temos assistido ao surgimento de diversas redes de projetos com cariz social entre a comunidade tecnológica, médica e empreendedora – talvez o maior destaque vá para o movimento Tech4Covid19 que já agrega centenas de entidades -, que apelam à canalização de esforços e à inovação conjunta na luta contra o vírus. Face ao clima de incerteza, a palavra de ordem é adaptação. Confesso que me tranquiliza saber que a tecnologia está ao nosso lado nas trincheiras.

Pedro Carneiro é professor de Data Analytics na Ironhack Lisboa