Rádio Observador

Cooperação económica

De braço dado com Angola

Autor
  • José Manuel Silva

O momento político angolano é propício à criação de laços baseados na reciprocidade e na igualdade de tratamento, sem complexos de nenhuma espécie. A história foi o que foi, o presente está em curso.

Integrados numa missão da Associação Empresarial Portuguesa, apoiada pela AICEP, participámos na última edição da Feira Internacional de Luanda – FILDA 2019, 9 – 13 de Julho, onde apenas estiveram representados dois estabelecimentos de ensino superior privado português e nenhum estatal.

Se atentarmos na estrutura social do país é fácil constatar o enorme potencial de jovens estudantes sempre em crescendo, muitos dos quais poderão vir a estar em condições de frequentarem os diferentes estabelecimentos de ensino superior português. Os números são avassaladores e um enorme quebra-cabeças para Angola, mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a taxa de natalidade tem valores da ordem de 6,2 filhos/mulher, nas zonas urbanas, e 8,2 filhos/mulher, nas zonas rurais, este ano estima-se que a população total já ultrapasse os 30 milhões e as previsões oficiais apontam para um crescimento anual, nos próximos anos, de cerca de 1 milhão de novos angolanos.

É sabido que, no futuro, o mercado do ensino superior, em Portugal, mesmo com todas as políticas de captação de novos públicos e de estímulo aos estudantes oriundos do ensino profissional para continuarem estudos, vai contrair-se e esta tendência será tanto mais acentuada quanto a baixa natalidade não for compensada com a entrada de imigrantes em idade reprodutiva ou estudantes estrangeiros.

Tudo razões para se apostar em mercados emergentes, como o angolano, onde é expetável que o desenvolvimento do país faça explodir a procura de educação superior, sem que haja capacidade instalada para responder ao acréscimo desta demanda e a alternativa de estudos no exterior seja uma possibilidade a encarar por muitas famílias.

Portugal pode ser a primeira escolha por várias razões, sendo a língua uma das mais importantes, mas também a qualidade das instituições, o custo de vida, o clima, o ambiente académico cada vez mais apelativo e internacional e, last but not least, o afeto que nos liga, porque muitos portugueses aqui nasceram, muitos continuam a ter por este país um apelo de feitiço e muitos angolanos têm em Portugal a sua segunda pátria.

Aparentemente tudo aconselhava a que houvesse outro dinamismo na divulgação em Angola das oportunidades de estudar em Portugal, mas, infelizmente, o mercado do ensino superior está ainda muito numa fase pré-comercial, não se investe o necessário, não se trabalham devidamente os mercados, não se atua em conjunto e não se rentabiliza a marca Portugal.

É verdade que se fazem algumas campanhas Study in Portugal, talvez mais de prestígio do que verdadeiramente de captação, mas não são do conhecimento público os seus resultados reais, e embora já tenhamos escolas muito bem cotadas no panorama mundial e que captam estudantes em todas as latitudes, a percentagem global de novos alunos continua a ser inferior ao desejável no panorama geral do país.

Por outro lado, as campanhas levadas a cabo pelos organismos do Estado são quase sempre destinadas à divulgação apenas dos estabelecimentos sob tutela pública, ignorando-se que as escolas privadas prestam também um serviço público de educação de qualidade, servem de forma geral estudantes oriundos de famílias menos favorecidas ou estudantes trabalhadores e têm de ser encaradas como parceiros indispensáveis e não como supletivas das estatais.

Mas a questão que agora nos interessa é outra; como alavancar em Angola um programa de verdadeiro intercâmbio com Portugal no domínio da captação de estudantes angolanos para estudarem em Portugal, usando os mecanismos de apoio da AICEP ou outros? Primeiro, abrindo as instituições portuguesas a programas de cooperação bilateral efetivos em que a receção de estudantes angolanos em Portugal correspondesse a contrapartidas de apoio académico a Angola. Segundo, flexibilizando a emissão de vistos ou dispensando-os para quem fosse estudar em Portugal ao abrigo deste programa. Terceiro, financiando parcialmente os programas de estudo em Portugal como se financiam programas de exportação de outros produtos, incluindo linhas de crédito bonificado, créditos a fundo perdido ou créditos bancários a pagar pós formação, modalidade incipiente em Portugal e que devia ser incentivada.

Esperar que Angola se erga da situação difícil em que está para então colher os frutos maduros não é inteligente, nem justo; Angola precisa do nosso apoio agora, não para delapidarmos os seus recursos e o seu capital humano, mas para contribuirmos para o seu desenvolvimento.

“De braço dado com Angola” é o mote que nos serve de inspiração e orientação, não se trata de captar estudantes angolanos numa operação meramente comercial e de interesse financeiro, importa que Portugal e as instituições de ensino superior estatais e privadas assumam um compromisso de parceria para o desenvolvimento, Angola necessita de formar os seus quadros, Portugal precisa de rentabilizar os seus estabelecimentos de ensino superior.

O momento político angolano é propício ao estabelecimento de laços baseados na reciprocidade e na igualdade de tratamento, sem complexos de nenhuma espécie, a história foi o que foi, o presente está em curso e o futuro será o que nós, em conjunto, quisermos e conseguirmos construir.

Presidente da Escola Superior Santa Maria Saúde. Membro da direção da Associação Portuguesa do Ensino Superior Privado – APESP

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