Já é elevado o nível de saturação desta situação pandémica. Desconfina, confina. Trabalho presencial, teletrabalho. Até que horas podemos andar na rua? Há supermercados abertos? Que fazemos com os miúdos que querem estar com os amigos?  Podemos estar até com quantas pessoas? Podemos ir visitar os pais que vivem noutro concelho? Até que horas podemos circular hoje? Como fazemos para proteger a nossa bolha?  E a bolha que se cruza com as outras bolhas, no caso das famílias reconstituídas? No meio de todo o turbilhão, retemos que devemos ficar em casa o mais possível e com o menor número de contatos sociais. Devemos procurar encontrar o sossego em casa mas ao mesmo tempo é tudo um desassossego e desespero.

No modo caseiro lá procuramos o conforto do nosso lugar. Escolhemos as roupas de andar por casa, despreocupados com a roupagem formal das idas para o trabalho e outros eventos sociais. (Haverá certamente um estudo que diga se as marcas destas roupas e as desportivas não aumentaram a taxa de vendas). Para quem gosta de se arranjar para saídas e festas, há-de aproveitar as escassas ocasiões possíveis para tirar do armário as peças especiais e de bom corte. Ou fazer uma festa entre os seus com a pompa e circunstância momentânea que seja exequível. Um desafio novo à moda de trazer por casa e qualquer dia talvez com inovações com a roupa de saída à rua, pois inspirações caseiras poderão influenciar tendências. Quiçà novas conjugações de tecidos, cores e padrões poderão ser reinventadas?

Temos de aceitar o desafio de sermos inventivos e resilientes. Saber aproveitar o melhor no pior. E se para já temos de nos voltar a recolher, toca de aquecer o nosso corpo e acalentar a nossa alma. O bem estar provocado pelo conforto é essencial para o sentimento de aconchego. Faz-nos sentir seguros tais bebés envolvidos pelos braços dos seus cuidadores. E voltar a inovar nas atividades dentro de portas. Já se sabe que a possibilidade de engordar volta, pois a cozinha passa a ser a divisão mais visitada quanto mais tempo se passa em casa. Ainda para mais, com o frio a abrir o apetite para chás, chocolate quente, scones e bolos. Mas não conseguimos controlar tudo a preceito. Precisamos de consolos doces em tempos amargos. Entre pijamas, roupas de casa e fatos de treino, que felizmente também existem cada vez mais modelos bonitos e sofisticados, não nos sentimos desleixados nem apertados. Usufruamos então do benefício do casulo, façamos ode à comodidade e esperemos que seja breve este tempo que não nos faça perder o contato com a realidade fora de portas e com a rotina necessária à nossa saúde mental. Sabemos bem o prejuízo em todas as esferas psíquicas, sociais e económicas se sujeitos a muito confinamento. A medida da nossa resiliência é sermos capazes de inventar o possível que nos ajude a manter equilibrados perante cenários difíceis e voltarmos a nós mesmos sem afetação da nossa estrutura e recuperação da nossa forma pós crise.

anaeduardoribeiro@sapo.pt