A adolescência não é fácil! Não é fácil ter um corpo aos safanões, no modo (às vezes, “desengonçado”) como se cresce. E, da mesma forma como é acolhedor, logo depois, que se “desmancha”, se insubordina e, até, magoa. E se torna feio diante de tudo aquilo que nele não se deseja. Não é fácil ter a cabeça aos solavancos e o mundo tão depressa parecer claro e “arrumado” como, logo a seguir, passivo, apático ou desleixado. Não é fácil a sexualidade, que faz da cabeça um corrupio e um tumulto, e traz um terramoto de reacções que parecem levar a que se erotize tudo e mais alguma coisa. E faz com que se tema que a vida se transforme num furor, incontrolável, de instintos e de impulsos.

Não são fáceis as pessoas. Porque — muito depressa! ~- tratam um adolescente com complacência como, logo a seguir, se abespinham com os seus apartes e com a sua irritante timidez. Não são fáceis as palavras, que ora saem em jacto, cheias de “picos” — e agrestes! — ora se resumem a monossílabos, a murmúrios e a “grunhidos”. Não são fáceis os esgares, o revirar dos olhos, a cara que estala, de tanto se corar, e os enxofranços, por tudo e por nada, mesmo que não se queira. Não é fácil a escola, que exige muito mais do que tudo aquilo que ela dá. Não é fácil — sobretudo quando o presente se impõe, espartilha e desarruma — que o futuro não seja, senão, longe demais. Não são fáceis os grupos, que mimam, misturam, ligam e integram como, a seguir, são parciais, e se tornem volúveis e excluem. Não é fácil a moda, que tão depressa democratiza como, logo depois, segrega, pela forma como impõe marcas e modelos e é volátil e efémera. Não são fáceis as amizades, que fazem com que, de manhã, se seja “a melhor amiga”; ao almoço, se deixe de se falar; à tarde, haja reconciliações com lágrimas; para que, no final do dia, se mude de grupo. Não é fácil reagir aos apelos das novas tecnologias e moderá-los, sem que se fique “agarrado” a elas e, depois, “viciado” nelas. E não é fácil ser-se irreverente e insolente e assustado e engasgado; tudo de seguida. Não são fáceis as regras. Que tão depressa parecem sem nexo e arbitrárias como, a seguir, opressivas mas compreensíveis. Não são fáceis os amores, que fazem do embirrar o prelúdio do “morrer de amor” com que se vai ao “dar um tempo”, muito depressa. Não é fácil a agenda. Que comporta trabalho, trabalho e mais trabalho e pouca vida própria. Não são fáceis os humores. Que tão depressa trepam com o entusiasmo como, a seguir, se afundam de razões que a razão não descortina. Não são fáceis os pais, que vão de farol a nevoeiro e, a seguir, são desidealizados, e as suas incoerências e as suas fraquezas trazem a insegurança de só se ter a certeza de não se querer ser igual a eles. E não são fáceis, ainda, porque tanto condescendem como, depois, reprimem, repreendem e rivalizam nos amuos e nas birras. E “pegam” e “atazanam”. E terminam a considerar que um adolescente está “impossível” ou, nos dias piores, que está “estúpido de todo”. E não é fácil que todos assumam que, quando não é a “idade do armário”, a adolescência só possa ser uma “idade parva”, claro.

É verdade que, apesar de tudo o que é difícil, os adolescentes conseguem rir. E abraçam causas. E são sensatos. E não dizem aos pais nem metade daquilo que sentem, para os protegerem. E é verdade que se safam com as notas porque, na verdade, ninguém os ensina a estudar. E que fazem por aprender por mais que a forma como são ensinados não comporte escutá-los, dar-lhes voz ou convidá-los a perguntar e a pensar. Só não entendo que haja quem, falando para os adolescentes, lhes diga que a adolescência é fácil. Porque não é verdade! Porque isso parece fazer dos adolescentes consumidores de slogans e, muito pouco, pessoas discernidas.

Todos os pais que foram adolescentes sabem que a adolescência não é fácil. Mas que aquilo que complica a adolescência é a forma alarmada como os pais lidam com ela. Como se não estivessem autorizados a ter opiniões claras. E a ser um reservatório de sabedoria. E a definirem regras. E a exigirem em função de tudo aquilo que façam. E a conviverem com a intuição dos adolescentes que faz flashs o tempo todo mas que precisa de legendas, quase sempre.

Por isso, deixem-nos ser adolescentes; sem que deixem de ser pais. Dêem-lhes tempo para ser adolescentes! Deixem-nos errar. Deixem-nos querer mudar o mundo. Deixem-nos ter sonhos. Deixem-nos reclamar e reivindicar. Deixem-nos experimentar a liberdade. Deixem-nos pôr os pais em causa. Mas não deixem (nunca!) de ser pais. E lembrem-se que muitas das dificuldades dos pais, hoje – um certo tom “certinho” e assustado que possam ter, um lado pouco “escutador” e, até, as confusões que façam entre dizerem “não!” e serem maus e, mesmo, as vossas pequenas infelicidades ou a vossa tentação de serem “pais de manual”  – terão mais a ver com a adolescência que não tiveram do que pode parecer. Por isso, façam melhor! Assumam que não é fácil ser-se adolescente. Mas não se esqueçam que pior que a adolescência aos 13, aos 14 ou aos 15 é a adolescência depois dos 30. Por isso, deixem-nos ser adolescentes! Dêem-lhes luta. Cresçam com eles. Mas deixem a adolescência em paz.