Rússia

Deixem os jornalistas trabalhar /premium

Autor
322

A polícia russa deteve e espancou Ivan Golunov, jornalista do Meduza, conhecido pelas investigações sobre corrupção. É mais um sinal de que o Kremlin receia cada vez mais perder as rédeas do poder.

Uma sociedade sem jornalismo de investigação é cega e obediente. Por isso as elites autoritáritárias e cleptocratas querem fazer calar as vozes dos jornalistas, desacreditando-os ou matando-os.

No dia 12 de Junho, assinala-se o Dia da Rússia e, como já não acontecia há alguns anos, fui convidado para participar na celebração dessa festa, organizada pela Embaixada da Federação da Rússia em Lisboa. Tinha pensado estar presente, mas ainda não será desta vez.

Nada tenho contra os diplomatas russos, nem contra o povo desse país que tanto me deu e ensinou, mas não irei porque os dirigentes da Rússia perderam completamente a vergonha, inventando processos contra qualquer cidadão que ouse tornar público o desacordo ou descontentamento com o regime.

Na passada sexta-feira, a polícia deteve e espancou Ivan Golunov, jornalista russo do jornal electrónico Meduza, conhecido pelas suas investigações sobre a corrupção no país, nomeadamente sobre as ligações pouco transparentes entre os serviços funerários de Moscovo e agentes do Serviço Federal da Rússia (FSB/KGB)! Segundo os seus camaradas de profissão, Ivan Golunov é, actualmente, um dos melhores jornalistas de investigação do país.

A acusação nada tem de original “tentativa de venda de estupefacientes”, mas a pressa com que o Ministério do Interior e o Ministério Público da Rússia tentaram mostrar “trabalho feito” foi ao ponto da polícia ter publicado na sua página nove fotografias — alegadamente feitas durante as buscas na casa do jornalista, onde se fica com a ideia que este dirigia um laboratório de preparação de drogas –, mas, depois, ter de vir reconhecer que oito dessas fotografias foram feitas “noutros locais ligados à mesma rede”.

Ironia do destino ou nem tanto, um dos oficiais da polícia que dirigiu esta operação esteve, há alguns anos atrás, no centro da atenção da imprensa por estar ligado a uma rede de tráfico de droga.

Escusado será dizer que o jornalista passou uma noite na prisão sem que ninguém soubesse e, quando exigiu a presença do seu advogado, foi agredido. Os familiares e o advogado só souberam da sua detenção no dia seguinte.

Este tipo de ataque aos jornalistas, muito frequente na Rússia de Vladimir Putin, foi tão descarado que levou os três jornais económicos maiores do país a saírem com a mesma capa onde se lê: “Eu/Nós somos Ivan Golunov”.

Numerosos conhecidos intelectuais, alguns deles que pouco ou nada têm de opositores ao regime, levantaram a voz contra esta acção da polícia, mas a reacção das autoridades actuais é só uma. Por exemplo, Andrei Makarevitch, conhecido compositor e cantor soviético/russo, que pode ser comparado a Bob Dylan pelo seu estilo musical, tinha sido convidado para actuar com a sua banda “Machina Vremia” (Máquina do Tempo) no concerto dedicado ao Dia da Rússia, que irá ter lugar na Praça Vermelha de Moscovo, mas  deixou de fazer parte do programa depois de ter criticado a prisão do jornalista.

Nos últimos tempos, temos assistido a toda uma série de acontecimentos na Rússia (a detenção de Michael Calvey, o maior investidor ocidental na economia russa, o despedimento de praticamente todos os jornalistas da secção de política interna do jornal “Kommersant”, o encerramento da cadeira de Ciências Políticas na Escola Superior de Economia de Moscovo, as perseguições contra os apoiantes de Alexey Navalni, um dos líderes da oposição, etc.)  que mostram que o Kremlin receia cada vez mais perder as rédeas do poder. Como esse poder é na quase totalidade controlado pelos serviços secretos russos, no seio destes é cada vez mais evidente a luta para manter Putin do seu lado.

Para os cleptocratas que dirigem a Rússia, é fundamental ter Putin no poder o mais tempo possível, mas a sociedade russa está cada vez mais cansada de promessas falsas como a recentemente feita pelo dirigente russo de colocar o seu país entre as cinco maiores economias do mundo até 2024.

P.S. Para evitar alguns comentários já gastos, sublinho que a perseguição de jornalistas é condenável em qualquer país, incluindo Portugal, Estados Unidos, etc., etc.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A hipocrisia da política de sanções /premium

José Milhazes
292

A Europa perdoou à Rússia a agressão à Ucrânia, a invasão da Geórgia em 2018 e dá mais uma prova de “misericórdia” em 2019. A que se deverá este acto que traz à memória o famigerado Acordo de Munique?

Rússia

A hipocrisia da política de sanções /premium

José Milhazes
292

A Europa perdoou à Rússia a agressão à Ucrânia, a invasão da Geórgia em 2018 e dá mais uma prova de “misericórdia” em 2019. A que se deverá este acto que traz à memória o famigerado Acordo de Munique?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)