Quando foram anunciados os ministros do actual governo, muita gente se chocou com o baixo número de mulheres. O contraste com o recém-empossado governo canadiano era chocante. Mas, na verdade, sempre que se discute a possibilidade de criar quotas de género obrigatórias para cargos de elevada responsabilidade, há sempre quem se insurja contra, alegando que as mulheres devem ser promovidas pelo seu mérito e não por serem mulheres.

Há uns dias, li um livro interessantíssimo de Luciano Amaral sobre a ascensão e queda do Grupo Espírito Santo (GES), “Em Nome do Pai e do Filho…”. Nesta história, é possível encontrar diversas pistas para explicar o lastimável estado da economia portuguesa, em particular, percebe-se como uma sociedade meritocrática está tão longe das nossas tradições. Por exemplo, Luciano Amaral explica-nos como Ricardo Salgado conseguiu chegar à liderança do grupo. No fim dos anos 80, Ricardo Salgado era um quadro médio sem qualquer relevância no grupo. Mas, quando em 1991 morreu o líder do GES, Manuel Espírito Santo Silva com apenas 58 anos, não havia um sucessor óbvio e era necessário escolher um. Cito Luciano Amaral:

Na linha de sucessão, vinham os descendentes de Ricardo Espírito Santo. Um deles era António Ricciardi (…). O seu maior problema era não ostentar o nome dinástico: Espírito Santo. Era apenas casado com uma filha de Ricardo Espírito Santo. Para além disso, o seu sogro tinha transmitido directamente aos netos os poderes associados às suas parcelas de propriedade. Como tivera apenas filhas, cuja vocação nunca seria dirigir o grupo, Ricardo Espírito Santo deixara-lhes simplesmente o usufruto de rendimentos, endossando aos netos homens a responsabilidade de contribuir para a vida empresarial. Ora o primeiro neto nestas condições era Ricardo Salgado (…).

Como se percebe, foi por considerações relativas ao mérito que foram excluídas as mulheres da contenda.

Na semana passada, Maria João Marques, que partilha comigo esta coluna de opinião, rebelou-se contra o que diz ser “uma das causas crescentes do politicamente correto”: os brinquedos para crianças. Maria João Marques reconhece que “oferecer às meninas eletrodomésticos de brincar ou reproduções de vassouras ou tábuas de engomar tem evidentemente a mensagem ‘as tarefas domésticas são femininas’”. E também reconhece que “os brinquedos de rapazes estão associados a competências espaciais e matemáticas”. Mas, ao mesmo tempo que reconhece isto, desvaloriza os efeitos que tal condicionamento mental possa ter no desenvolvimento futuro das crianças. Mas não devia.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Há uns anos, três professores de Economia, Roland Fryer (Harvard university), Jacob Goeree (University of Technology Sydney) e Charles Holt (Virginia University), fizeram vários jogos com os alunos para explicar os efeitos da discriminação. Dividiram os alunos em dois grupos, empregadores e trabalhadores. Os trabalhadores foram divididos em roxos e verdes. Nesse jogo, com vários rounds, cada trabalhador tinha de decidir se investia em educação ou não. O empregador, apenas observando a cor do trabalhador (ou seja, sem saber se tinha investido em educação ou não), tinha de decidir se o contratava ou não, sendo que os que tinham investido em educação tinham maiores probabilidades de serem mais produtivos. Numa das vezes, por um mero acaso, os empregadores convenceram-se, erradamente, de que os roxos investiam menos em educação e deixaram de os contratar. A partir desse round, mesmo que um roxo investisse em educação, ninguém o contratava. Rapidamente, esta decisão se tornou uma profecia auto-sustentada. Os roxos, vendo que não eram contratados, deixaram de ter o custo de investir em educação, dando assim razão aos empregadores que não os contratavam. O resultado final foi uma “sociedade” segregada com um grupo de trabalhadores verdes educados e um grupo de roxos que não investiam em educação porque não valia a pena. E, vale a pena lembrar, nesta “sociedade” as condições de partida eram iguais para todos e todos tinham exactamente as mesmas capacidades. Foi um puro acaso estatístico que induziu reacções e comportamentos que depois geraram este resultado.

Há três semanas, falei-vos de uma tese de doutoramento que concluiu que na Dinamarca as mulheres com filhos eram menos produtivas e o ordenado que recebiam a menos correspondia à sua perda de produtividade Já as mulheres sem filhos eram tão produtivas como os homens, mas também recebiam menos que as suas contrapartes masculinas. Qual a causa e qual o efeito? São as mulheres que gostam de tomar conta dos filhos e que, por isso mesmo, se tornam menos produtivas na empresa, dando razão a quem lhes paga menos logo de início? Ou será o contrário, como me sugeriu Vera Gouveia Barros? Como, logo de início as mulheres ganham menos, é normal que, quando um casal tenha filhos, fique a mulher encarregada de tomar conta das crias, investindo menos na sua carreira profissional. Como distinguir um efeito do outro? É difícil saber, até porque se olharmos para o reino animal, vemos várias espécies em que os papéis liderança pertencem aos machos, mas encontramos outras em que são as fêmeas as cabeças do clã.

Uma matilha de professores de economia, Steffen Andersen (Copenhagen Business School), Seda Ertac (Koc University), Uri Gneezy (University of California, San Diego), John List (University of Chicago ) e a nossa Sandra Maximiano (Purdue University) estudaram sociedade patriarcais e matriarcais na Tanzânia e na Índia, para tentar perceber quais as diferenças que são naturais e quais as que são induzidas pelo ambiente social.

Partiram de um facto conhecido: no mundo ocidental, os homens gostam mais de competição do que as mulheres. E foram ver como se comportam homens e mulheres numa sociedade assumidamente patriarcal (a tribo dos Maasai, na Tanzânia) e numa sociedade matriarcal (a tribo Khasi, na Índia, onde são as mulheres que mandam e toda a vida social e económica roda à volta da anciã da família). E o que concluíram? Na tribo patriarcal, os homens são muito mais competitivos do que as mulheres, apresentando valores semelhantes aos das sociedades ocidentais. Mas, na tribo Khasi, os resultados foram diametralmente opostos, sendo as mulheres bem mais competitivas do que os machos. Ou seja, pelo menos neste aspecto, o da competitividade e apetência pelo risco, parece que as diferenças entre os géneros são socialmente induzidas e não naturais ou genéticas.

Estes economistas foram mais longe e estudaram outra tribo patriarcal na Índia, que em tudo o resto, quer economicamente quer biologicamente, era semelhante à tribo matriarcal Khasi. Queriam tentar perceber o momento em que surgem as diferenças entre os sexos. E as conclusões são, mais uma vez, interessantes. Na tribo patriarcal, é logo a partir dos 12 anos que as raparigas se tornam menos competitivas do que os rapazes. Mais uma vez se conclui que pelo menos este traço psicológico é socialmente induzido e não uma questão genética.

Concluindo, como diz a Maria João Marques, os sexos não têm de ser iguais. Mas, para sabermos quais as verdadeiras diferenças, temos de os deixar ser iguais.

PS. No meu artigo da semana passada, dei uma informação errada. Ao contrário do que sugeri, caso a resolução do Banif esperasse por 2016, não haveria fundos europeus mobilizados em favor dos depositantes do Banif. Agradeço às várias pessoas que me apontaram o erro.