Filosofia

Democracia e formas simbólicas /premium

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O estudo da história do pensamento político recorda-nos o retorno maciço do pensamento mítico com o nazismo, alertando para o perigo de uma única forma simbólica se apoderar de todas as restantes.

Em 1929, em Davos, na Suiça, ocorreu um dos mais célebres debates filosóficos do século XX. O debate opôs dois filósofos alemães: Martin Heidegger, que dois anos antes havia publicado o muito influente Ser e tempo,  e Ernst Cassirer, autor já de uma vastíssima obra, na qual se contam os três volumes da Filosofia das formas simbólicas (1923-1929), cujo segundo volume, sobre o pensamento mítico (de 1925), havia sido objecto de uma recensão de Heidegger. A discussão girou em torno da obra de Kant, do qual os dois filósofos propuseram interpretações radicalmente distintas. Heidegger lia-o à luz dos próprios temas de Ser e tempo: o primado da ontologia e da reflexão sobre a finitude humana, antecipando um livro que publicaria mais tarde no mesmo ano, Kant e o problema da metafísica.A interpretação de Cassirer, por sua vez, partia do próprio sistema kantiano, insistindo na diversidade dos planos e dos problemas que este manifesta e afastando-se de qualquer tentação de tudo resumir a uma única questão. O debate terminou sem acordo entre os dois participantes, um acordo que o futuro certamente não beneficiaria. Cassirer, judeu, seria obrigado em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, a partir da Alemanha: primeiro para Inglaterra, depois para a Suécia e finalmente para os Estados Unidos, onde morreria em 1945. Heidegger, pelo seu lado, aderiria ao partido nazi em 1933 e ser-lhe-ia fiel (embora, a partir de certa altura, não muito vocal) até ao fim.

Não escrevi este longo parágrafo introdutório para discutir os méritos e deméritos das interpretações de Kant por Heidegger e Cassirer, nem sequer para comentar os diferentes destinos políticos de Heidegger e Cassirer. Fi-lo apenas para sublinhar um aspecto que, entre outros, distingue perfeitamente ambas as filosofias. Heidegger, de Ser e tempoaté aos seus últimos escritos, repete incansavelmente a mesma questão, que para ele é a única interrogação filosófica digna desse nome: a questão do ser, do que entendemos nós, e do que entendeu a filosofia até nós, pela palavra “ser”. Em contrapartida, Cassirer, cuja filosofia não possui menos unidade do que a de Heidegger, interessou-se muito mais (na Filosofia das formas simbólicase nos seus outros livros) pela diversidade dos modos através dos quais e espírito humano se manifesta, por aquilo que chamou a “morfologia do espírito”.

Sendo um pensador sistemático, Cassirer procurou estabelecer relações entre os vários modos dessa manifestação, que não se limitam aos três estudados na Filosofia das formas simbólicas(linguagem, mito e conhecimento científico) e incluem a arte, a ética, a religião, etc. Cassirer refere-se também às várias formas simbólicas, que são no fundo maneiras de pensar, como “formas de vida”, isto é, modos de existir particulares. Ora, e é aí que quero chegar, todas elas gozam de uma legitimidade própria, que nenhuma das outras pode abolir. Sem dúvida que, por exemplo, a ciência representa um avanço por relação ao mito, mas ela não traz consigo a destruição do mito. Dito de outra maneira: o regime das manifestações da morfologia do espírito é pluralista.

Estamos nos antípodas do pensamento de Heidegger. Em Heidegger não há qualquer espaço autónomo, na sua interrogação sobre o ser, para a ética, a estética ou a ciência (no fundo, a velha tríade platónica do Bem, do Belo e do Verdadeiro). Todas elas, escapando à interrogação sobre o ser, não alcançam a dignidade do verdadeiro pensamento, que é, tal como Heidegger o entende, exclusivamente pensamento sobre o ser. Isto ao ponto de, coerentemente, Heidegger poder escrever que “a ciência não pensa”.

Disse atrás que não pretendia falar das posições políticas de Cassirer e de Heidegger. Mas há, apesar de tudo, algo de muito geral que se pode dizer. O centramento num tema único, em torno dos quais todos os outros, dependentes, giram, é uma característica dos estados totalitários do século XX, em que a ética, a ciência e a arte se encontram sob o estrito controle do político. Não quero deduzir do centramento numa questão única um qualquer totalitarismo da filosofia de Heidegger (Deus sabe que há muito nele por onde pegar se se quiser ir por aí): limito-me a assinalar uma coincidência.

Como convém sublinhar uma coincidência oposta do lado de Cassirer. O pluralismo da Filosofia das formas simbólicas é coerente com as práticas comuns das democracias, que não pretendem reduzir tudo à dimensão política e onde a ciência e a arte, por exemplo, não são por ela inteiramente absorvidas. O próprio tom em que Cassirer escreve – ao contrário do de Heidegger, cheio de pathos e com constante recurso a uma retórica do “perigo”, do “ameaçador”, etc. – é coerente com o que diz. Velho herdeiro do Iluminismo, a linguagem não cede nunca nele a sortilégios mágicos. O respeito absoluto pelos modos através do qual se expressa a morfologia do espírito, pelas maneiras de viver que esses modos trazem consigo, é incompatível com qualquer enfeitiçamento pela linguagem.

E, já agora, é coerente com o seu último livro, escrito já nos Estados Unidos, o único que escreveu unicamente ocupado pela filosofia política, publicado postumamente em 1946: O mito do Estado. O livro procura explicar, através de um estudo da história do pensamento político, o retorno maciço do pensamento mítico que o nazismo exibe. Há uma breve referência final a Heidegger, cuja filosofia é dita facilitar esse retorno. É impossível não pensar na discussão, prévia a Davos, sobre o segundo volume da Filosofia das formas simbólicas. E no perigo de uma única forma simbólica se apoderar de todas as restantes, trazendo consigo a destruição.

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