Neymar Júnior, estrela do futebol brasileiro (e mundial), à semelhança de Cristiano Ronaldo, enfrenta uma das acusações mais graves da sua vida, ou seja, uma acusação de crime de violação. Em ambos os casos a forma diferiu, mas o resultado foi o igual.

Ronaldo, em 12 de junho de 2009, em Las Vegas, numa discoteca do Hotel Palms Casino Resorts, conheceu uma mulher americana de 25 anos de idade que convidou para a sua suite e, supostamente, forçou-a a ter relações sexuais com ele.

Por seu turno, Neymar, recorrendo ao uso das redes sociais (Instagram), chegou à conversa com uma mulher de 26 anos de idade e, após troca de mensagens, convidou-a a encontrar-se com ele em Paris, tendo-lhe pago as passagens e respectiva estadia. A dita mulher, compatriota de Neymar, hospedou-se então no Hotel Sofitel Paris Arc de Triomphe a 15 maio do ano corrente, e, nesse mesmo dia, o jogador apareceu no quarto, por volta das 20.00h, aparentemente embriagado, e começaram a conversar e a tocar-se. Porém, os enlevos duraram pouco, já que, de repente, o craque do Paris Saint-Germain tornou-se agressivo, acabando por obrigar a sua parceira a ter relações sexuais com ele.

A perícia médica, realizada seis dias após a presumível violação perpetrada por Neymar, identificou um quadro clínico de «dor, perda de peso, ansiedade e problemas gástricos pós-episódio de stress emocional e hematomas provenientes de agressões na região das nádegas e pernas».

À semelhança do que fez Ronaldo, Neymar também negou qualquer tipo de violação e fala em sexo consentido. Embora os ordenamentos jurídicos americano e brasileiro sejam distintos, não se pode ignorar que tocar, apalpar ou ter sexo com alguém só se deve fazer com o seu consentimento.

Assim, uma condenação por agressão sexual, nos EUA, pode levar a uma sentença de prisão perpétua, com uma possibilidade de liberdade condicional após dez ou quinze anos, dependendo dos danos causados à vítima, ao passo que no Brasil o código penal, no seu artigo n.º 213, prevê uma pena de prisão efetiva de seis a dez anos.

No Brasil, a violência exercida sobre mulheres apresenta números assustadores. De acordo com o Departamento de Pesquisas Judiciárias, só em 2018, os casos pendentes de violência doméstica ascendiam a 1.009.165, as medidas protetivas das vítimas elevavam-se a 339.216 e os homicídios praticados contra mulheres, vítimas de discriminação de género, de violência doméstica ou sexual cifravam-se em 4.461 mortes.

Este inaceitável número de vítimas é bem demonstrativo de padrões de cultura desrespeitadores, controladores e discriminatórios da mulher, remetendo-a para mero objeto de prazer ou de trabalho.

Perante os casos de Neymar e de Ronaldo parece-me lícito questionar todos aqueles que admiram os grandes ídolos dos estádios. Pode um grande futebolista, que tantas alegrias dá aos adeptos do seu clube, ser um agressor/violador? Pode um grande futebolista comportar-se, social ou familiarmente, como um agressor/violador?

Albert Einstein, o génio da ciência do século XX, era um mulherengo que maltratava a sua mulher, Mileva. “Trato a minha mulher como uma empregada que não posso despedir”, gabava-se Einstein.

Pergunto ainda: mas, afinal, o que é que se passa? O que é que levará, de repente, a que celebridades em que o público acredita cegamente se escangalhem assim sem mais nem menos?

Será por fraquezas de vária ordem, principalmente educacionais, os leva a ser incapazes de resistir ao sabor de uma simples maçã?

Que responda quem souber ou quiser! No entanto, uma coisa é certa: o simples facto de convidar uma mulher para uma suite de hotel, tal não pressupõe nem dá a ninguém o direito de usar e abusar sexualmente de quem imaginava um romance e se deparou com violência. E, depois do ato praticado, só recebeu desprezo, humilhação e ameaça de processos, numa palavra, viu arrastar pela praça pública o seu nome e a sua dignidade.

Os clubes, em situações extrafutebol, nunca farão nada que ponha em causa os direitos desportivos dos seus jogadores, e a legislação também nada prevê. As federações de futebol e, particularmente, as ligas preferem assobiar para o lado para não perderem os seus colossais proventos económicos. Por isso, perante o não querer saber, só restará aguardar pelo próximo agressor que os estádios idolatram.

Sócio partner da Dantas Rodrigues & Associados