É preciso um país sofrer de um grave transtorno para que o seu Chefe do Estado-Maior do Exército se demita por causa de uma polémica como a que envolveu o Colégio Militar. E sobretudo que o ministro da tutela e o Presidente da República aceitem essa demissão.

Por todo o país, em escolas públicas e privadas, temos tido casos de agressões gravíssimas entre alunos ou de alunos a professores, casos de violação e situações de indisciplina que comprometem a aprendizagem. Demitiu-se alguém? Algum ministro pediu explicações a quem quer que fosse? Alguém sabe em que resultaram os inquéritos a esses casos? Foram levados até ao fim?

É assim que estamos: o que realmente acontece não conta. O que conta é a forma como nos referimos a uma alegada realidade. Para o caso não conta que o Colégio Militar tenha óptimos resultados escolares, que a maior parte dos seus alunos reconheça como positiva a sua passagem por lá e que muitos dos problemas que parecem endémicos noutros estabelecimentos ali nem se coloquem.

O que conta é que os responsáveis dominem o “linguistês” que permite passar entre os pingos da fúria das redes sociais, dos activistas disto e daquilo e desse modo colocar-se a salvo dos sobressaltos da tutela. Assim como o subdirector daquele colégio fez uma declaração que pode ser interpretada como discriminatória para os alunos homossexuais, tivemos logo o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, a pedir explicações, considerando a “situação inaceitável” e o Presidente da República a aceitar o pedido de demissão do Chefe do Estado-Maior do Exército, general Carlos Jerónimo. Sem esquecer o BE que imediatamente requereu a audição do general Carlos Jerónimo para lhe perguntar se tinha conhecimento da “discriminação em função da orientação sexual”, existente no Colégio Militar. (A possibilidade de ver o general Carlos Jerónimo a ser inquirido por Catarina Martins ou por uma das gémeas Mortágua é bem um símbolo daquilo a que chegámos!)

Na verdade, se um aluno ou aluna do Colégio Militar tivesse sido assassinado ou violado não acontecia nada. Ou talvez, como se tratava do Colégio Militar houvesse quem aproveitasse para tentar questionar a existência da instituição. Mas apenas por isso. Podia o subdirector ter-se exprimido doutro modo? Podia. Mas basta pensar na idade dos alunos daquele estabelecimento escolar ou no facto de este colégio ter internato para perceber que nesta matéria se recomenda menos desejo de ficar bem na fotografia, muito bom senso e nunca trocar o realismo pelo activismo.

Sublinhe-se que os activismos neste campo nunca se perdem, apenas se transformam: nos anos 70 ninguém se preocupava com os homossexuais mas sim com a sujeição que a moral burguesa impunha à sexualidade, nomeadamente à sexualidade das crianças e adolescentes. E assim tivemos desde internatos com camaratas mistas a escolas e jardins-de-infância em que os adultos que tomavam conta das crianças não só mantinham com elas práticas sexuais como se orgulhavam disso.

Este video de Cohn-Bendit em que o herói do Maio de 68 relata as suas experiência sexuais com crianças de quatro anos nos jardins de infância alternativos é um testemunho perturbante desses tempos.

Ao ver-se hoje este video percebem-se várias coisas. A primeira, e mais óbvia, é que estar do lado mediaticamente certo da História faz com que tudo se esqueça e perdoe. A segunda é que as matérias de educação, sexualidade e família são o terreno por excelência dos sucessivos activismos, particularmente quando falham no assalto directo às instituições. E, por último, que os radicais triunfam não apenas graças à fé que anima os seus prosélitos acerca da superioridade das suas teses mas sobretudo porque ninguém ousa contrariá-los: Cohn-Bendit diz barbaridades mas Cohn-Bendit não passava de um jovem adulto parvo e mimado pelos jornalistas, pelos políticos e pelos intelectuais. Mas vejam quem está à volta: são adultos, gente que se tomava por culta e humanista. Gente que perante o relato alarve de Cohn-Bendit sorri cabotinamente como quem inveja a descontracção com que aquele jovem revela o que eles só pensavam em segredo. Ninguém diz: isto não pode ser. Aliás quem o fizesse era imediatamente rotulado como atrasado, burguês e hipócrita.

Esses eram os anos que no Le Monde e no Liberation se escreviam textos de apoio a pedófilos presos, argumentado, como sucedeu no caso de Gerard R. preso por ter relações com meninas de 6 a 12 anos, que se estava perante uma “moral de Estado”. Pelo contrário, lia-se nesse texto-petição subscrito por gente das artes e da cultura, “O amor das crianças é também o amor dos seus corpos. O desejo e os jogos sexuais livremente consentidos têm o seu lugar nas relações entre crianças e adultos. Eis o que pensava e vivia Gerard R. com meninas de 6 e 12 anos cujo crescimento prova aos olhos de todos, incluindo os seus pais, a felicidade que elas encontravam nele.”

Hoje ninguém apoiaria publicamente um texto como este e alguém que numa televisão dissesse o que Cohn-Bendit ali declarou seria preso. Quero com isto dizer que daqui a 40 anos a perspectiva sobre a frequência por alunos homossexuais de escolas como o Colégio Militar será diferente? Não necessariamente.

Pessoalmente acredito que a presença de alunos homossexuais até deixará de ser um assunto: estes frequentarão sem problemas as escolas e a instituição militar. Aliás estou até convicta de que, esgotada rapidamente a questão dos alunos homossexuais, teremos o problema dos alunos transgender. Para já a questão ainda não se colocou por cá mas já vai na rota do costume: é o artista que se escandaliza porque num estado dos EUA – nunca é um estado qualquer mas sim um dos “atrasados” – os transgender não podem ir à casa de banho que consideram a sua (seja como for e onde for, de todas estas reivindicações resulta invariavelmente qualquer coisa na casa de banho das mulheres); a escola em Espanha ou no Canadá onde uma criança quer ser tratada como sendo doutro sexo ou de sexo algum… O assunto é ainda mais residual que os alunos homossexuais no ainda mais residual Colégio Militar. Mas nada disso interessa.

(Aliás se houvesse alguma preocupação real nesta matéria discutiríamos o problema das crianças que não podem frequentar as piscinas: meninas acompanhadas pelo pai e rapazes pela mãe usam o balneário do sexo do progenitor durante algum tempo. Mas à medida que os anos passam crescem os olhares de incómodo. Irem sozinhos para o balneário correspondente ao seu sexo é a solução mas se os homens não têm grandes problemas em encaminhar as filhas para o balneário das mulheres já para uma mãe mandar um filho pequeno sozinho para o balneário dos homens não é algo que a deixe tranquila.)

Se me sobram as dúvidas sobre como vamos lidar no futuro com estas questões restam-me duas certezas: um outro general, professor, director… acabará dentro de alguns anos a ser chamado a uma qualquer comissão pelos activistas então no activo. Se calhar para o inquirir sobre a militarização dos homossexuais que muito provavelmente já não se podem chamar assim; quiçá para o recriminarem sobre as pressões exercidas no seu colégio para que os jovens assumam que são homo ou heterossexuais quando, argumentarão os activistas desse tempo, o combate à discriminação passa pela indiferenciação de género. Claro que alguns dos activistas desse tempo serão os mesmos de agora mas lembrá-lo será objecto de censura: os radicais nunca têm passado, apenas um projecto para nos libertar no presente e construir um futuro perfeito.

Tal como acontece no video de Cohn-Bendit não me surpreende o que os radicais defendem. Ou vão defender. O que me choca, perturba e assusta é a demissão de quem está à volta. O fatalismo com que aceitam aquele tropel de causas e propostas. E como todos andamos submetidos àquele “ainda” que colam às causas que dizem fracturantes: “ainda” não aprovámos a legislação; “ainda” não implementámos a medida; “ainda” não fizemos isto ou aquilo que, garantem, trará a felicidade, a igualdade e qualquer outra coisa acabada em “dade”. E, claro, os demais logo atirados para o campo dos atrasados que “ainda” não acompanham o curso dos tempos logo se dispõem a livrar-se de tal tara. E assim temos andado. Ou mais propriamente desandado.