É importante analisarmos primeiro, como e porque é que chegámos a esta situação.

Uma nova estirpe de um vírus pertencente à família dos Coronavírus surgiu na China no fim do ano passado, com as primeiras notícias a surgirem no início deste ano, que davam conta de que já existia um problema de saúde pública.

Em Portugal, assim como no resto do mundo, víamos como um problema distante que se passava quase do outro lado do mundo, e que por isso, nunca cá chegaria. Assim, permitimos que as nossas farmácias, supermercados e drogarias vendessem todos os seus stocks de máscaras, luvas, álcool, entre outros, para serem exportados para a China.

Não vale a pena perguntar porque é que ninguém pensou, que muito provavelmente, iríamos precisar desses produtos num futuro próximo. Apesar de nos termos apercebido que a China tinha uma epidemia numa determinada região, e até depois de se verificar que se tinha alastrado a outras regiões e a alguns países asiáticos, ingenuamente pensámos que o vírus se manteria naquela zona. Como se não existisse um fluxo permanente de pessoas a entrarem num avião e a viajarem para qualquer ponto do globo!

Como espectadores distantes, fomos assistindo a uma novela diária em todos os noticiários. Acompanhámos a imposição do confinamento, resgates, com uso da força pelas autoridades, de doentes de suas próprias casas, profissionais de saúde com medidas de protecção incríveis, até o levantamento de hospitais em dias! Mas tudo estava distante, tal como estiveram os fogos na Austrália ou o ciclone Idai em África.

Infelizmente, os nossos governantes, que acredito terem acesso a informação privilegiada, também foram acompanhando à distância todos estes acontecimentos. Não houve uma preocupação em nos prepararmos para uma pandemia inevitável (não fomos os únicos, o resto do mundo teve a mesma inércia), passando a um estado de alerta só quando começaram as primeiras tragédias em Itália. A partir dessa altura, foi como um começo de uma nova temporada de uma série empolgante de qualquer canal de streaming, diagnosticar o primeiro paciente em Portugal! Fomos dos últimos na Europa, o que deu para longos episódios durante vários dias, com directos em hospitais e aeroportos, especialistas a falar, tudo à espera daquele que seria o primeiro doente em Portugal. Mas esqueceram-se de preparar o que aí vinha, até que veio! Só após os primeiros casos confirmados é que tomámos consciência de que era real.

Uma série de medidas foram adoptadas, primeiro por iniciativa da população e só depois pelo governo. Escusando-me de analisar a fundo essas medidas (daria para escrever um livro), faço uma análise de como será o retorno à normalidade.

Tal como se ignoraram os grupos de risco no início do confinamento (patologias de base e idade), também agora assistimos a um programa de desconfinamento que ignora completamente estes grupos.

Vemos a nível nacional e internacional, que a partir dos 70 anos, a mortalidade é várias vezes superior ao resto da população, sendo ainda muito superior a partir dos 80 anos. Para além do simples facto da probabilidade desta doença (assim como da grande maioria das doenças) ter uma maior mortalidade quanto maior a idade, também as pessoas mais velhas são aquelas que têm maior prevalência das doenças que conferem aumento do risco de mortalidade. Claro que também há pessoas mais novas, e algumas delas até completamente saudáveis, que morrem, mas são uma indiscutível minoria. Por isso, não tem qualquer lógica o programa de desconfinamento ignorar os grupos de risco.

Assim, as pessoas que se inserem nestes grupos, ficam na dúvida daquilo que podem ou não fazer com o levantamento progressivo das restrições. Há aqueles que não se apercebem do elevado risco de mortalidade que têm em caso de infecção, e que por isso poderão não tomar medidas adicionais, assim como há aqueles que, por terem consciência da sua condição, poderão ficar numa ansiedade extrema e adoptar medidas de isolamento extremas.

É muito perigosa a linha de raciocínio de que as pessoas com mais de 70 ou 80 anos, que se sintam bem, que têm direito a um desconfinamento tal como as faixas etárias mais novas. Temos vários exemplos, só em Portugal, de pessoas que eram activas, e aparentemente com bom estado geral de saúde, mas que tiveram uma evolução bem mais grave da doença que os mais novos. Não se trata sequer de uma atitude paternalista, trata-se de um problema de saúde pública. Trata-se de um problema de sobrelotação dos cuidados de saúde que pode levar ao seu colapso em poucos dias. Assistimos a isso em países tão próximos de nós.

Com o levantamento das restrições, a circulação de pessoas aumentará, voltar-se-á a algumas rotinas, mas as pessoas mais velhas não deverão regressar a uma rotina igual à que tinham antes da pandemia. Deverão, dentro do possível, manter-se em casa e evitar locais públicos, assim como adoptar medidas para voltarem a estar com os seus familiares.

É muito importante que mantenham os contactos telefónicos e as já muito frequentes videochamadas que têm com familiares e amigos, mas que também voltem a ter visitas (lembrar que nem todos têm acesso às novas tecnologias). Estas visitas é que deverão ser bem planeadas. É saudável que os mais velhos voltem a ver os seus familiares, mas mantendo uma distância de segurança e usando máscara em ambientes fechados. Não deverão receber muitas visitas de uma só vez, e que quem os visite em casa utilize máscara e desinfecte mãos e sapatos.

O uso da máscara é muito eficaz na transmissão do vírus. Atenção que é muito mais eficaz se for utilizado pelo portador do vírus do que apenas pelo outro. Para ser mais claro, uma pessoa apenas transmite o vírus pelas gotículas expelidas pela boca. Por isso, uma pessoa infectada muito dificilmente contaminará se utilizar uma máscara (razão pela qual que não se deve tocar na máscara, pois pode estar a contaminar as mãos que a seguir contaminarão tudo aquilo em que toquem).

Para além do uso de máscara, uma lavagem correcta e frequente das mãos, assim como das superfícies com as quais contactamos, são fundamentais. Já a utilização de luvas torna-se realmente contraproducente pela falsa sensação de segurança e pela maior contaminação a que elas levam. Que não se confunda com a “falsa segurança das máscaras”, como avançado pelas autoridades de saúde, numa altura em que estas não estavam disponíveis.

Com esta pandemia, também muitas lojas e restaurantes se adaptaram, surgindo muitos serviços de entrega ao domicílio de bens alimentares, produtos farmacêuticos, entre outros.

Até a Missa passou a ser assistida massivamente pela televisão ou pela internet. Para os católicos, que entendem bem o sentido da Missa presencial com a Comunhão, tiveram que se adaptar e aceitar estas medidas de excepção. Quem imaginava há uns meses que as portas das igrejas se fechariam para os crentes? Que os padres celebrariam a Missa sozinhos e que estas seriam transmitidas nas redes sociais?

Em suma, estamos com um levantamento faseado de restrições mas ignorando os mais vulneráveis. É muito importante não esquecer que apesar do tão falado “Ro” (número médio de pessoas que podem ser infectadas por uma pessoa infectada) ser mais baixo, o número de infectados activos é aproximadamente 100 vezes superior ao do início do estado de emergência. Passamos a ter mais informação e equipamentos de protecção individual adequados, mas quanto maior a exposição maior a probabilidade de contágio.

Todos nós temos que nos adaptar a novas regras de socialização com a certeza de uma coisa, que nos próximos tempos, nada será como antes!