passeio aleatório

Desmantelar a avaliação prestaria um péssimo serviço ao ensino

Autor
344

Só uma flexibilização inimiga da exigência pode querer destruir a avaliação externa com exames. E desmantelar a avaliação independente seria desonrar um esforço de décadas para melhorar o ensino.

Na semana passada estiveram em Portugal representantes da OCDE. Mas enquanto aqueles que apresentaram um relatório sobre a investigação científica avançaram algumas ideias interessantes, outros desta organização apareceram, possivelmente em nome individual, associados a ideias bizarras sobre o ensino.

Reconhece o relatório sobre investigação que é necessário prosseguir o investimento na ciência e dar-lhe estabilidade, pelo que critica as “frequentes cativações”. Alerta para a inexistência de uma estratégia global, fala de uma necessária “especialização em áreas de excelência”, critica o “uso ineficaz de recursos escassos”. Sustenta que o financiamento da FCT para bolsas de doutoramento não está a ser direcionado para áreas de investigação prioritárias.

Afirma ainda que o financiamento de “doutoramentos em áreas onde existe pouca procura” é “mau uso de dinheiros públicos” que “encoraja as pessoas a prosseguirem um modelo de formação e carreira que as desvia de opções mais produtivas”.

Mais, alerta para o risco de se “perpetuarem expectativas irrealistas” sobre oportunidades de uma carreira académica e defende a integração de investigadores no mundo empresarial. Finalmente, nota o insuficiente registo de patentes, considera que se deve incentivar a realização de doutoramentos em empresas e defende uma política de bolsas através de programas doutorais.

Ou seja, o relatório da OCDE veio dizer o que já muitos tinham notado, mas que parecia de mau tom notar. Aguardam-se os resultados.

Pela mesma altura, e com a presença também de responsáveis da OCDE, houve uma discussão sobre o ensino que se revelou um ataque concertado à avaliação dos conhecimentos. Sobre o pretexto de atualizar o sistema de acesso ao ensino superior, retomaram-se os velhos e caducos argumentos contra a avaliação dos estudantes.

É claro que pode fazer sentido atualizar o sistema de acesso ao ensino superior, e aí é preciso que se diga claramente como, para se perceber se aparecem propostas novas, justas, equilibradas e que permitam igualmente uma admissão com base no mérito. Mas só por ingenuidade se pode acreditar que é isso que está em causa nas intervenções dos últimos dias. Para a conclusão do Secundário montou-se ao longo dos anos um sistema de avaliação externa e uniforme que é o melhor que existe no país. Foi esse sistema que incentivou um rigor que depois se transmitiu ao Básico, onde finalmente, em 2005, foram introduzidos exames, e permitiu que Portugal começasse a subir nas avaliações internacionais. A pressão tem sido sempre de cima para baixo: para os alunos virem mais bem preparados, sempre mais bem preparados. Não sejamos ingénuos: há quem não goste!

Fala-se também no “dilema” de “ensinar para o mundo de amanhã ou para o exame nacional” O que volta a ser absurdo. Como se o conhecimento fosse inimigo da preparação para a vida!

Critica-se a existência de uma via facilitada para alunos do ensino profissional, como antigamente existia e como parece que se pretende voltar a fazer, mas será mais justo destruir todo o sistema? Claro que o processo de admissão deve ser flexível, sem um modelo igual para todos ­– mas as entradas em medicina não exigem já exames diferentes dos de filosofia? Até onde deve ir a flexibilização? Até cada um saber apenas aquilo que ele próprio acha que deve saber?

A pressão para acabar com os exames aparece ainda justificada com a pretensa flexibilização curricular. Mas a flexibilização curricular não é nova. Ela apareceu em 2014 exatamente com os 25% de que agora se fala. Só que a flexibilização original preservava as disciplinas essenciais, as metas e a avaliação: cada escola podia seguir o caminho que pretendesse, desde que os seus alunos alcançassem mínimos comuns, avaliados externamente. Só uma flexibilização inimiga da exigência pode querer destruir essa avaliação externa. E desmantelar a avaliação independente seria desonrar um esforço de décadas para melhorar o ensino.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
passeio aleatório

Curvas maravilhosas /premium

Nuno Crato

Ao contrário da presunção de alguma antiquada intelectualidade, os cientistas-autores portugueses dão lições de humildade e de capacidade de comunicação. E entre eles destaca-se Jorge Buescu. 

passeio aleatório

Curvas maravilhosas /premium

Nuno Crato

Ao contrário da presunção de alguma antiquada intelectualidade, os cientistas-autores portugueses dão lições de humildade e de capacidade de comunicação. E entre eles destaca-se Jorge Buescu. 

passeio aleatório

Duas surpresas do PISA /premium

Nuno Crato
184

Schmidt mostrou-nos números, dados e resultados e as suas conclusões são simplesmente o contrário do que tem frequentemente surgido em debates que não são baseados em factos, mas apenas em ideologia. 

passeio aleatório

Nunca tinha ido a Moscovo /premium

Nuno Crato
195

Na última edição do estudo TIMSS, em 2015, os nossos estudantes passaram à frente de 36 países, incluindo a Finlândia! Como é possível ter passado à frente do país modelo da educação europeia?

Medicina

João Lobo Antunes /premium

Maria João Avillez

Porque é que aquele rapaz tão bonito, de olhar azul claro, um companheiro de trabalho tão curioso e atento aos outros, parecia por vezes taciturno e quase triste? “Estudava muito” dizia-se por lá.

Inovação

Os Pilares da Digitalização

João Epifânio

Pilar fundamental para o desenvolvimento da economia digital é a capacidade de incluir todos os cidadãos e empresas garantindo condições de igualdade de acesso à informação e a redução da infoexclusão

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)