Crónica

Desprotecção, zanga, melancolia

Autor

Como “a educação dos portugueses é o medo à polícia”, pode ser que tanta “contravenção” e o seu súbito estatuto de “enteado” vença o automobilista. Mas o combate é miseravelmente desigual.

1. Temporal. Estragos. A fúria do vento e o rugido rouco do mar a varrer o país de norte a sul com o seu cortejo de consequências próprias das iras da natureza. O Estado entra em cena, quase sempre mal, raras vezes bem e a tempo, a zanga dos elementos terá a resposta habitual: uma cadeia de boas vontades de populações, vizinhos, familiares, até de gente que “ia a passar”, sempre mais presente que a resposta organizada e operativa do país e do seu Estado.

Não é porém preciso ir tão longe, basta atentar no que ocorre entre nós quando simplesmente chove no inverno, (mesmo que hélas não chova o suficiente): o transito logo pára, não há um táxi, as poças de água surgem por todo o lado, algumas estações de metro têm o pavimento tão molhado que torna difícil a um desprevenido transeunte não partir pernas e pés, começam a ouvir-se os silvos das ambulâncias, os parques de estacionamento transformam-se em lagos brilhando enganadoramente no chão, registam-se “ocorrências” de inundações, começa a tocar o telefone nos bombeiros. Lisboa bloqueia. Que fragilidade é esta? Eu não a vejo em lado nenhum em mais nenhuma outra cidade europeia.

Uma coisa são acidentes da natureza, condições meteorológicas excepcionais como este último fim-de-semana; outra, a normal rotina do Inverno. A chuva, misteriosamente de resto, tem aqui caracter de acontecimento onde desaguam tristíssimos sinais de subdesenvolvimento e de igual desprotecção. Uma estação de metro alagada onde um idoso – ou seja quem for – tem de andar com mil cuidados para evitar o risco de se partir aos bocados, exibe um entendimento de serviço da parte do Estado que identifica um país. E lá está aquela irremediável certeza que ciclicamente reeditamos: o Estado português é desprotector. Seja nas grandes catástrofes, seja na mais comezinha das circunstâncias da vida – como chover quando é suposto – o Estado, de tão frágil, é inconfiável.

E já não falo das “n” estações de metropolitano com as escadas rolantes avariadas porventura até á eternidade, porque isso se situa no habitual perímetro do desmazelo traduzido na congénita falta de respeito do Estado pelo cidadão (pagador-de-impostos), limito-me simplesmente ao banal factor chuva e às suas pasmosas consequências.

A que atribuir que entre nós se colapse tão facilmente e que alguns serviços da administração pública cumpram tão dificilmente os serviços mínimos?

(Em contrapartida há zelo, eficácia e empenho na perseguição aos automobilistas. A condição de automobilista, malvista pelos poderes, parece aliás compulsivamente, em extinção, como se andar em carro próprio fosse uma vergonha, um abuso, um pecado, não se percebe bem. À polícia só lhe falta morder-nos se ultrapassamos trinta – 30, ouviram bem? ­– quilómetros/hora em certas artérias; se encostamos o carro por uns breves momentos abatem-nos com o olhar, a seguir ouvimos uma duvidosa prelecção sobre civismo, depois vão-nos aos euros. Suspeito que haja ordens “de cima” para o excesso destas operações, é preciso a todo o custo ir buscar o dinheiro que não há ao bolso do contribuinte, todos os pretextos servem mesmo que maus. Como porém “a educação dos portugueses é o medo à polícia” [Eça?] pode ser que o sufoco das “contravenções” e o seu súbito estatuto de “enteado”, vença o automobilista. Mas o combate é miseravelmente desigual.)

2. Quem tenha árvores no jardim, uma propriedade no campo ou dois palmos de terra deve estar quase a endoidecer: chega a ser alucinante a descoordenação entre os diversos serviços públicos que se afadigam em prevenir futuros incêndios. Não discuto obviamente a indispensabilidade da empreitada – pelo contrário, agradeço-a –, apenas me aflige a sua atabalhoada inoperância. A correspondência que recebemos cá em casa é contraditória, há intimações e recomendações absurdas, há autoridades que não hesitam em ameaçar em vez de explicar, quando se pedem esclarecimentos as respostas destooam de serviço para serviço.

Com o afã de mostrar trabalho e o pânico de ser acusado de não estar a fazer nada, governo e governantes, autarcas, autoridades, polícias, afogam-se em ordens e contra ordens que constituíriam porventura um animado vaudeville, mas que temo estarem a semear um quadro demasiado confuso e desorganizado tal a ausência de um fio condutor lógico nesta situação de “prevenção”. E tal a falta de clareza nas recomendações do que deve ser a nossa actuação como cidadãos responsáveis.

3. Mas consegue haver pior: são os relatos – e o que é a pungência da miséria senão isto? – dos que ficaram para trás. Para trás da geografia, dos auxílios, dos subsídios, da atenção e até… sequer do acesso a uma linha telefónica ou de rede para um telemóvel! Basta ler o eloquente ­– porque absolutamente verídico – testemunho que sobre isto mesmo aqui deixou há dias Luís Rosa para alcancar a trágica dimensão do que falo. Passadas as lágrimas, o horror e os abraços dos fogos do verão, logo se reinstalaram desmazelos, esquecimentos, incúrias. Parece que até hoje e sem desmentido. Estado desprotector.

4. Estava eu nesta melancolia amaldiçoada pelo cinzento quadro alemão ( a grande coligação jamais voltará a ser uma grande coligação) a deprimente trapalhada italiana, o triste resultado de alguns Óscares e o enlouquecido vento lisboeta quando a vida me abriu um doce entre parêntesis. A vida e o pintor Manel Baptista. A história é boa e é disso que precisamos: boas histórias escritas pelos outros. O caso é que o pintor tem um cardiologista dado às artes. Um dia, um dos seus pacientes, o fotógrafo Mário Cabrita Gil auto fotografou-se na qualidade de recém operado. Atrás dessa foto vieram outras, o médico – José Miguel Santos – sugeriu-lhe que as mostrasse, ali mesmo, no consultório. Como as cerejas, houve mais arte, desta feita a de Manuel Baptista, que “tinha umas coisas” no atelier lisboeta (o outro fica erm Faro). Revisitando-se a si próprio, olhou para elas, encontrou-lhes uma coerência – a paisagem –, articulou as “Falésias” que debruam a costa do Algarve (tinta da China com acrílico) com aguarelas onde é questão – ou achamos que é questão – de largas folhas esbatidas, troncos de árvores, plantas. Pintadas com cores amáveis delas irradia uma luz mediterrânica (“usei acrílico aguado que me dá o efeito aguarela mas com outra luminosidade e outra intensidade”) e de parede para parede, seguimos felizes o fio da concreta, real, harmonia que as une.

“Foi tudo quase um acaso…”

Foi? Nunca se sabe o que vai na cabeça desse departamento a que me apetece chamar glorioso que são os artistas, abençoados sejam mais os seus acasos”

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