É dúbio que António Costa tenha sido tão valente no Conselho Europeu como se quis mostrar na conferência de imprensa. De acordo com as primeiras informações o primeiro-ministro português terá ficado calado. Voz grossa só mesmo cá fora. Mas, independentemente disso, na política o que parece é e António Costa parece ser um líder determinado. Daqueles que sabe o que quer. E isso é importante num momento de crise. Esta é uma crise para durar e, por essa razão, é essencial que Costa fique até ao fim. Para as medidas populares da ribalta, mas também para as difíceis que temos pela frente.

Medidas ainda mais difíceis porque o Estado não está em condições de ajudar. Apesar das contas públicas equilibradas, a dívida pública subiu em Janeiro para os 252,1 mil milhões de euros. Era o equivalente a cerca de 117,7% do PIB. Digo era porque, entretanto, o PIB caiu e continuará a cair, razão pela qual sempre entendi que o importante é o valor nominal da dívida e não a sua percentagem face ao PIB. Uma ajuda do Estado conduzirá à sua bancarrota e, provavelmente, ao colapso do Estado social. Os nossos filhos e netos ficarão ainda mais comprometidos com uma factura que não contraíram. Não encontro neste tipo de socialismo qualquer vislumbre de solidariedade, mas de puro egoísmo geracional.

Apesar de tudo isso os defensores do socialismo andam eufóricos. Para eles esta é a oportunidade do poder público salvar a humanidade e mostrar que o capitalismo falhou. Tal qual António Costa, na dita conferência de imprensa, acreditam que ganham o argumento pela aparência e não pelos factos. As prateleiras dos supermercados estão cheias, diversas empresas reinventam-se no combate à Covid-19 e eles falam de caos. Mas estão determinados e isso é importante.

Na semana passada escrevi que uma ajuda às empresas e aos empresários em nome individual seria que o Estado prescindisse dos impostos e das contribuições sociais destas empresas, ao mesmo tempo que liberalizava a lei laboral. Na Irlanda ajuda-se quem perde o emprego devido à pandemia e não se proíbe o despedimento, impedimento que condena as empresas. Não é este o caminho que o governo português pretende seguir. O nosso executivo prefere distribuir dinheiro que não tem com vista a impedir a adaptação das empresas à crise pandémica. Muitos sonham com o regresso às nacionalizações. É uma escolha  legítima que tem custos e exige responsabilidades.

Costa tem-se mostrado determinado e responsável. Se assim é o país precisa dele. Não só agora mas até ao fim da legislatura, em 2023. Portugal precisa de estabilidade e da responsabilidade dos que apontam o caminho. E se, em 2011, o partido responsável pela quase bancarrota do Estado se eximiu às suas obrigações, tal não se pode repetir. Até porque o PS, o Bloco e o PCP mudaram. Ao contrário do que sucedeu entre 2011 e 2015, estes partidos já defendem (e se congratulam) com as contas certas. Estes partidos foram os responsáveis pelo excedente orçamental de 2019. Saberão, com certeza e melhor que ninguém, estar à altura do desafio que vamos enfrentar. Terão a receita para a recessão económica que se avizinha. Durante o período da troika disseram que a austeridade não era solução (apesar dos bons resultados de que beneficiaram). Têm agora uma excelente oportunidade para mostrar que estavam certos. O sucesso do socialismo não é encher o peito e distribuir dinheiro. É provar que ultrapassa recessões económicas e enquanto enche os supermercados.

Porque se diz determinado espero que António Costa não falhe. Que não saia a meio da presente legislatura. Não o faça quando a pandemia acalmar, mas apenas quando o povo o disser. Numa democracia os cidadãos votam e há seis meses votaram no PS. Há uma maioria de esquerda no Parlamento mais forte que em 2015. Não há motivos políticos para saírem antes do tempo. As medidas socialistas pressupõem estender o poder público e aumentar a despesa, com o consequente aumento dos impostos e demais custos sociais. Todos os benefícios têm custos e, desta vez, estes terão de ser apresentados aos portugueses pelos partidos de esquerda. Desta vez não se podem eximir das suas responsabilidades. A determinação é isso. Se desistirem é porque o socialismo falhou. Está nas vossas mãos, mãos que ironicamente lavam vezes sem conta. Desta vez o país conta convosco para a implementação das medidas impopulares. Boa sorte.