‘Ideologia’ foi uma doença muito avistada depois de PSD e CDS ganharem as eleições de 2011. Todas as pessoas decentes do país se queixaram, nos primeiros seis meses do governo, que a malvada coligação queria implementar um ‘programa ideológico’. Acabar com as golden shares foi ‘ideológico’, as alterações da legislação laboral tresandaram a’ ideologia’, o corte dos subsídios aos funcionários públicos esteve carregadinho do pecado ‘ideológico’, os cortes na despesa nos vários setores (de resto menores do que os negociados pelo PS no memorando de entendimento) foram o cúmulo da ‘ideologia’.

Com a proximidade das eleições, os diagnósticos de ‘ideologia’ têm explodido outra vez nos lados dos técnicos de saúde política afetos ao PS. Eu nos últimos tempos já fui objeto de vários diagnósticos de ‘ideologia aguda’ no twitter, na sua forma declarada e incurável. Às vezes pondero se não seria melhor (para bem da saúde pública) acoplar uma campainha à minha carteira para avisar quem se cruza comigo desta debilitante condição liberal em que me encontro.

Claro que quem se queixa de ‘ideologia’ tem muita razão. Os partidos – todos – apresentam uma ideologia aos eleitores através das suas propostas políticas nos programas eleitorais; e os eleitores decidem para que combinação ideológica estão mais virados em cada momento eleitoral. Na verdade, os partidos menos ideológicos que por cá temos são PSD (cuja grande ambição da maioria dos seus militantes é ser de esquerda) e CDS (que ainda não se arrumou o socialismo beato).

Nem só os jovens costistas das redes sociais e do comentário político se preocupam com este surto infeccioso. António Costa também parece estar baralhado com o vírus ideológico. Por exemplo, em março, Costa ‘criticou o Governo por ter abdicado de uma abordagem pragmática na resolução dos problemas do país “por puro preconceito ideológico”’ (Expresso, 17/3/2015). Em abril, Cassete Costa afirmou: ‘Este Governo nunca olhou para os problemas de uma forma pragmática, olha sempre para os problemas com preconceito ideológico’ (RR, 12/4/2015).

Lá está, o governo sofre de ‘preconceito ideológico’ e não toma a dose diária recomendada de pragmatismo.

Bom, eu, que sou picuinhas na hora de os governantes e autarcas usarem o meu dinheiro pago em impostos, começaria por aplaudir que nem toda a gente sofra desta estirpe de pragmatismo. Aquela que ditou, por exemplo, que Costa permanecesse largos meses recebendo o ordenado de presidente da câmara municipal de Lisboa enquanto passava os dias em campanha para as primárias do PS (no dia de setembro do ano passado em que Lisboa inundou, Costa filmou-se a festejar em Coimbra) ou, a seguir, a desgovernar o seu partido.

Em todo o caso agradece-se que Costa nos informe que, para si, antes da ideologia está o pragmatismo. Deve ser por isso que fez parte dos governos que mais privatizaram (os de Guterres) e que agora tenha discurso semelhante ao do PCP nesta matéria e provavelmente vá apoiar o candidato presidencial Sampaio da Nóvoa, que vê carinhosamente uma banca nacionalizada. Ou que tenha apoiado João Cravinho quando ofereceu uma porção da TAP aos pilotos, apoiado Sócrates quando defendeu a privatização e agora fale da TAP como se houvesse solução além de a vender ou de a deixar morrer de morte lenta. (Aí, sim, a TAP morreria de ideologia – a socialista.)

Mas regresso à ideologia. Para Costa, o pregão arrepiante que tentou colar nas últimas semanas – o de ‘estado empreendedor’ – não é ideológico; a ideologia, aparentemente, só contagia pessoas de direita. À esquerda a política é imune a preconceitos; a direita endiabrada já devia saber que o padrão é o socialismo. Curioso. Defender um estado concorrente desleal das empresas (pelos meios mais abundantes que tem, por ser o legislador e o regulador), sufocando a iniciativa privada e criando empresas cujo objetivo é agradar à tutela em vez de aos clientes, para mim é o paradigma de ‘preconceito ideológico’. Preconceito, de resto, mais de colheita PCP do que do PS de Guterres e até de Sócrates.

Propor – como parece ser o caso, que Costa não vê necessidade de nos elucidar – aumento de IRS (seja via aumento da taxa ou via diminuição das deduções, vai dar ao mesmo) para os escalões mais elevados, quando Portugal já tem uma progressividade fiscal muito acentuada, e a nossa carga fiscal já está além de qualquer razoabilidade e justiça e moralidade, para mim ultrapassa ‘preconceito ideológico’: já cai na categoria de ‘saque assumido à classe média’. Porque – como de costume – quem vai pagar mais impostos não são só os ricos (são muito poucos), mas sim os que ganham uns exorbitantes 1200€ mensais.

Vendo António Costa e as suas propostas, reparo que os meus médicos têm razão. Afinal a ‘ideologia’ e os ‘preconceitos ideológicos’ podem ser mortais (para a economia e para a decência política, pelo menos). Em todo o caso, antes sofrer de ‘ideologia’ que padecer de ‘pragmatismo’.