O ideal seria pensar o menos possível nisso e confiar que as autoridades competentes lidam com a coisa diligentemente e com eficácia. Porque se trata de uma matéria que, para maior parte das pessoas, desvia a atenção do essencial, além de ser difícil de seguir nos seus meandros. Um indivíduo normal cansa-se e a imaginação necessária para compreender algo facilmente se esgota. E aquilo com que se fica, no fim, é o sentimento de uma equivocidade turva e ligeiramente angustiante. Como se houvesse uma conspiração, mas ninguém soubesse muito bem quem conspira e contra quem conspira. Estou a falar, é claro, da corrupção.

Claro que não há sociedades sem corrupção, e em tempos passados quase fazia parte da sabedoria comum pensar que se tratava de um mal menor e, à sua maneira, num caso ou noutro, com o seu quê de virtuoso. A um político corrupto perdoava-se a corrupção se ele fizesse, como se diz, obra. Se meter dinheiro ao bolso fosse uma espécie de combustível necessário para que a sua energia beneficiasse a comunidade, paciência. Ou, se calhar, tanto melhor, porque a admiração pelos que se desenvencilham bem é uma paixão comum que, de certo modo, estabelece uma cumplicidade que nos faz sentir próximos dos poderosos e os humaniza aos nossos olhos. Essa maneira de ver as coisas não desapareceu completamente, sem dúvida, como se viu aqui e ali nas últimas eleições autárquicas. Mas tornou-se certamente menos vulgar.

Várias coisas contribuiram para isso. O momento-chave, no entanto, foi o caso Sócrates. Tanto por se tratar de um ex-primeiro ministro, como por envolver o banqueiro do regime, como ainda graças ao pitoresco grotesco do personagem e da sua linguagem. E sobretudo porque nos demos conta da vasta extensão de uma teia na qual tudo se encontra ligado pelo mesmo apetite imoderado pelo dinheiro, uma teia cujos finos fios nos são revelados quotidianamente, como se existisse uma outra sociedade paralela à nossa que, na sombra, se alimentasse da nossa.

Aqui as coisas mudam de figura e a convivência com elas torna-se mais difícil. Agradecemos que se investigue e que se puna. E não é apenas o vulgar sentimento de injustiça que move as pessoas: é um mais radical instinto de sobrevivência. Por isso, tudo o que apareça como sugestão de relaxamento das investigações judiciais em curso – como é o caso da anunciada substituição da Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal – é visto com muito maus olhos. Até porque sabemos que um tal relaxamento nos conduz a um caminho sem recuo em direcção ao pior. Não, é claro, por ela ser insubstituível. Não é. Mas porque ela simboliza o desejo dos portugueses de ver mais claro o que se passa e de sair deste nevoeiro em que vivemos para nosso desprazer e grande prejuízo. O anúncio do desejo do Governo de a substituir no cargo, comunicado pela ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, aqui há uns meses, é, sem margem para qualquer dúvida, uma ameaça ostensiva aos cidadãos deste país.

Por falar em ministros. O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, admitiu ontem a existência de uma “quantidade significativa” de hospitais em “falência técnica”. A coisa não surpreende, pelo que se vai sabendo por aí. Os atrasos nos pagamentos aos fornecedores escalam a olhos vistos. Demitem-se directores de hospitais. O sentimento geral é que tudo rebenta pelas costuras. O financiamento do Serviço Nacional de Saúde, de que um país pobre como Portugal precisa como pão para a boca, não é objecto de nenhum debate que não seja no muito elevado plano dos princípios.

A organização da cegueira é militante, e tão mais militante quanto se apoia no nosso último milagre das rosas, neste caso de rosas socialistas: as célebres “cativações”, que tanto cativam o mundo, incluindo o mundo lá fora, organizadas pelo cativante ministro das Finanças, Mário Centeno. A catástrofe geral que por aí se anuncia com sinais muito palpáveis não tem merecido a devida consideração por parte da imprensa. Há outras coisas que lhe interessam mais. Como país de afectos que aparentemente somos, é mais de amor que se fala.

Mais precisamente, de poliamor. Consta que Catarina ama António e que António ama Catarina. Jerónimo também ama António, embora não ame Catarina, que também não morre de amores por ele. Mas António conhece-os bem e parece que, como o Don Juan de Molière, se costuma sair, em situações de aperto em que Catarina e Jerónimo o confrontam com a necessidade de revelar as profundidades do seu amplo coração, com a tirada: “Vocês sabem perfeitamente qual de vós eu mais amo”. Catarina e Jerónimo, porque humanamente precisam de ilusões, não inquirem mais fundo.  Precisam de amor.

Mas António, esse grande conquistador, descobriu recentemente, como a Wikipédia diz dos personagens dos filmes, um novo “interesse amoroso”, de seu nome Rui. Ainda ninguém percebeu porque é que Rui, conhecido pela sua integridade, buscou o carinhoso amplexo de António, uma fraqueza que a sociedade vê com maus olhos. Mas tal bastou para que Catarina se sentisse obrigada, de acordo com os seus princípios, que os tem fortes e vocais, a dizer que não é ciumenta. Jerónimo, mais conservador, levou ostensivamente a mal e recordou traições passadas, mas não pediu divórcio. Entretanto, gente competente discorre a este propósito sobre a diferença entre namoro e paixão. Por mim, sugereriria uma decisão óbvia: a substituição da actual Secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares por um Ministério do Amor, nitidamente mais conveniente à ordem actual das coisas. O amor, com os seus vastos poderes e os seus doces eflúvios, cura no espírito a corrupção e a doença. Haverá talvez mentes menos receptivas a esse benfazejo impulso humano – mas que consideração merecem elas, as prosaicas? Nomes capazes e interessados no cargo certamente não faltariam: assim de repente, dois ou três vêm-me imediatamente ao espírito.

Agora, querem que vos diga? Com toda a probabilidade, estamos lixados.