Primeiro, inventou-se a escrita para combater o esquecimento. Para inscrever na pedra a memória de qualquer coisa que não se poderia perder, para se atestar da verdade, que depois foi passando, paulatinamente, a equivaler à palavra escrita.

Depois as entidades oficiais rejubilaram. Bastava escrever o que quer que fosse para se obter a derradeira prova da sua autenticidade – para se ditar e escrever a verdade! E assim surgiram os diplomas, para certificar a vida, e os diplomas legais, para orientar a vida, e provas inequívocas e documentais, para que a verdade emergisse sempre na vida. E com isso veio a confiança cega: nos diplomas, nos títulos, na forma, no papel, no atestado, no certificado e no comprovativo.

E foi então que surgiram os diplomas falsos. E, com eles, a desorientação e o desalento quanto às fundações da Babel burocrática. O milagre da transubstanciação formal – que prometia converter o mero instrumento na verdade substantiva – era afinal um embuste.

Mais do que uma bandeira para um currículo – com o devido respeito pelas bandeiras e pelos currículos -, o que importa é a verdade e a rectidão de um perfil pessoal, profissional e ético. O que importa é o valor que esse perfil aporta a uma instituição, a uma empresa, a um partido político ou a um país. E, enquanto não apostarmos num modelo de educação e formação que ultrapasse a mera colecção de diplomas, não poderemos ambicionar uma cultura de desafio, de motivação, de exigência e de excelência – uma cultura, afinal, centrada no essencial e não na aparência. Uma cultura que repudie e rejeite, radicalmente e de vez, as deferências bacocas e subservientes à Senhora Doutora e ao Senhor Arquitecto com que continuamos entretidos.

O que a pequena parábola inicial demonstra é a facilidade com que, ao invocar a posse de um diploma, assumimos e engolimos um status quo – o dos títulos vãos e quasi-nobiliárquicos, o dos Relvas, dos Sócrates, dos Barreiras…

O que ninguém imaginava é que todos aqueles que se reclamavam detentores de diplomas, verdadeiros ou falsos, todos esses tinham começado a criar diplomas, a ditar diplomas, sobre tudo e sobre nada, que se atropelavam e anulavam, que obrigavam outros a obter diplomas em análise de diplomas, para fazer face a esse mar de supostas verdades absolutas em que se navegava sem costa à vista.

Somos o país do diploma. Do papel. Do documento. Da lei. Do decreto. Do regulamento. Da revogação parcial. Do legalismo. Do juridiquês. Da discussão de secretaria. Todos ostentando com orgulho os nossos diplomas, emoldurados numa parede social, esquecendo que o diploma, na sua origem, era dobrado e por isso era invisível aos olhos dos outros, a não ser que fosse necessário ir procurá-lo no fundo de uma gaveta, abri-lo e mostrá-lo – era só um diploma.

Preocuparmo-nos mais com o diploma do que com o seu valor intrínseco – ou com o valor intrínseco da pessoa, da carreira, das qualidades e da experiência que ele supostamente reflecte – é um dos sinais mais preocupantes do nosso paroquialismo atávico.

Que Almada me perdoe, mas… já chega! Basta! Pum! Basta!

Morra a geração diplo_maníaca!

Morra a diplo_mania, morra! Pim!