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A fúria da França, ao ver a Austrália desistir da compra de doze submarinos e a ser surpreendida por um pacto de segurança entre os EUA, a Austrália e o Reino Unido é perfeitamente justificável. Não são só dezenas de milhar de milhões que Paris vê desaparecer, mas também a oportunidade que este negócio lhe dava para se envolver na segurança do Indo-Pacífico, onde tem interesses nacionais estritos e vontade política de exercer poder naquela que se está a tornar a zona estrategicamente mais importante do globo.

Esta manobra também enfraquece o prestígio internacional francês e o seu sonho de grandeza. Emmanuel Macron nunca escondeu a sua veia Gaulista. Merkel foi-lhe sempre puxando o tapete, ainda que delicadamente, sendo que a saída de cena da Chanceler parecia ser a sua oportunidade de pôr em cima da mesa uma política externa europeia mais progressista – até já tem o nome de Global Gateway – que espelhasse o poder europeu, a meu ver imaginário, em equidistância das grandes potências, com o aplauso das opiniões públicas nacionais dos países europeus, que não querem saber de alianças com os Estados Unidos, nem de negócios com a China, nem dos ciberataques da Rússia. Uma opinião pública que acha que, se a Europa não levantar muitas ondas, pode continuar a viver segura e próspera enquanto o mundo acontece lá fora.

Afinal, não foi Merkel que travou Macron, foi Biden e a sua “diplomacia implacável” – expressão que usou noutro contexto esta semana, no discurso da Assembleia Geral das Nações Unidas. A política obriga a fazer escolhas difíceis. E o presidente norte-americano está a enfrentar um dilema que tem passado despercebido: compatibilizar a sua visão de ordem internacional com a sua estratégia para o Indo-Pacífico. Ambas servem o mesmo propósito: não deixar que a China ascenda à posição de grande potência. Mas a ordem é muito mais abstrata: consiste em reunir as democracias numa teia de relações, onde cada uma, com o seu papel, demonstre que este tipo de regime é superior moral e politicamente aos regimes autocráticos. A estratégia é concreta: os aliados mais confiáveis e geograficamente melhor posicionados têm de fazer face a uma ameaça muito real à sua segurança. Daí a importância fundamental que os países do AUKUS e do Quad (que se reúne hoje ao nível dos chefes de Estado) têm na estratégia norte-americana. Estão na linha da frente de defesa de territórios já disputados no Mar do Sul da China. Mais: estão dispostos a usar a força caso seja necessário para defenderem os seus interesses e os dos seus aliados.

Biden assumiu num telefona ao homólogo francês a sua responsabilidade em ter seguido em frente com um pacto de defesa sem consultar a França e os aliados europeus. No entanto, parece-me que as responsabilidades deste incidente diplomático  deviam ser partilhadas. Apesar de há 20 anos não haver uma administração americana tão empenhada em retomar a relação transatlântica, a resposta da Europa (incluindo a França) tem sido, no mínimo, ambígua. Da assinatura de um acordo de investimento com a China quando Biden já era presidente-eleito (já agora, também sem consulta prévia) à insistência na “autonomia estratégica”, em que a Europa quer transformar a “equidistância” (uma nova palavra para neutralidade) no centro da sua política externa, apesar dos repetidos pedidos americanos para que as partes se entendam e revalorizem a Aliança Atlântica, a Europa também não tem sido o parceiro confiável que os EUA procuram. Se uma maior autonomia europeia dos Estados Unidos é efetivamente desejável, não me parece que ser a bandeira da política externa seja a posição mais sensata.

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Biden terá conseguido aplacar Macron com a assunção de responsabilidades e a promessa de uma ligação mais profunda ao país (apesar do péssimo serviço de Boris Johnson, que não cabe em si de contente com a sua nova Grã-Bretanha global). O presidente francês, conseguiu, até certo ponto, a sua compensação. Mas será preciso muito mais de parte a parte. Os Estados Unidos têm de deixar os países europeus participarem da tomada de decisão. Os países europeus têm de ser mais convincentes na sua aliança com os EUA.

É que, no fim de contas, a estratégia americana faz sentido. Pode mesmo vir a ser um ponto de inflexão na política internacional em benefício das democracias liberais. Seria importante para todos que se harmonizasse a ordem com a estratégia; que os Estados Unidos dessem provas de que regressaram à relação transatlântica para ficar; que os europeus assumissem definitivamente a sua preferência pelo aliado americano e se prontificassem a aceitar a sua quota parte de responsabilidade na segurança regional (esqueceram-se da Rússia) e até global. Se este grave incidente pode ter criado embaraços à França e aos Estados Unidos, pode também vir a ser o recomeço necessário para as relações transatlânticas. Assim as partes o entendam.