Confusa, angustiada e temendo pela sobrevivência, a direita portuguesa voltou ao seu estado natural: a luta corpo-a-corpo.

No congresso do PSD, em Espinho, bastava respirar para perceber o que circulava no ar: um profundíssimo rancor em relação ao CDS. Afinal, o problema não era Paulo Portas — mesmo com a sua saída da liderança, os social-democratas continuam a ver à sua direita um partido que oscila entre o oportunismo e a traição.

O simples rumor de que se estaria a preparar uma candidatura conjunta à câmara de Lisboa, com Assunção Cristas à frente, foi suficiente para provocar um início de levantamento de rancho. Até Santana Lopes teve que vir recomendar, com o sorriso enigmático de quem fornece uma promessa e uma esperança: “Keep cool”.

Há algumas semanas, tinha acontecido algo de semelhante no congresso do CDS. Os militantes estavam eufóricos com a fraqueza do antigo parceiro de governo e sentia-se que até uma aliança informal com o PS seria possível desde que lançasse a desorientação e o desconforto entre os social-democratas.

Assunção Cristas, que acaba de chegar à liderança, não teve força nem vontade para contrariar isto. Já decidiu, pelo menos para já, que vai avançar sozinha, colocando-se entre o PS e o PSD, o que deve provocar um sorriso paternalista a Diogo Freitas do Amaral, o grande teórico da equidistância dos centristas.

Pelo que se ouviu no congresso do PSD, Pedro Passos Coelho percebeu que este caminho é uma armadilha e um perigo. No seu discurso de encerramento, fez duas referências simpáticas ao CDS e até falou da reforma da segurança social como um possível projeto conjunto na oposição. Mas não vai ser suficiente. O PSD sente-se demasiado perdido e demasiado acossado para alianças: à esquerda, tem um PS que parece capaz de executar com sucesso os planos políticos mais mirabolantes; à direita, um CDS que se sente mais forte do que realmente é; e, por cima, um Presidente da República sem dívidas nem amarras.

A direita vai, portanto, em direção à desgraça: sem um propósito comum nem um objetivo claro, deixará o PS sem uma oposição sólida. António Costa tinha razão: afinal, era fácil.

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