Já repeti isto muitas vezes nestes artigos, mas tem de se começar pelo princípio. O sistema internacional transformou-se e com esta transformação, além de outras mudanças, acabaram-se aquilo a que Max Boot chamou as “pequenas guerras da paz”. Trata-se de conflitos que não são diretamente necessários para garantir a segurança nacional, mas que servem diversas finalidades, tão distintas como assegurar o prestígio internacional de um Estado ou defender direitos humanos em Estados em tensão.

Os Estados Unidos fizeram-nas em abundância na sua história. Mas sempre em contexto hegemónico – quando eram líderes do hemisfério ocidental; quando eram os líderes incontestados do Ocidente, durante a Guerra Fria; quando eram a única potência do sistema internacional. Tudo isso mudou desde Obama: não só porque a estratégia escolhida para não declinar mais foi o retraimento estratégico, mas também porque havia – e ainda há, na sociedade norte-americana – uma grande fadiga de guerra. Trump compreendeu e seguiu o mesmo caminho do seu antecessor (usou a força para outros fins, mas sempre de forma massiva e cirúrgica). E Biden acabou – ainda que de uma forma profundamente desajeitada – o que sobrava das intenções de reconstruir Estados não reconstruíveis e de defender os direitos humanos em zonas longínquas.

Ao contrário do que muitas vezes se diz, o liberalismo internacionalista não era, originalmente, a favor da defesa dos direitos humanos a qualquer custo. Woodrow Wilson nunca se referiu a estes, nem como uma prioridade, nem como coisa nenhuma. O presidente acreditava num outro conceito, numa outra síntese: a defesa da nação deveria estar no centro do internacionalismo norte-americano. As nações fariam o que bem entendessem em prol dos seus.

A narrativa mudou por circunstâncias históricas. A primeira foi o facto de o “nacionalismo” (qualquer que fosse) se ter tornado numa palavra proibida e a nação ter passado a ser vista como a raiz de todos os males – a consequência lógica do crescimento do fascismo e das tragédias da II Guerra Mundial. Roosevelt percebeu isso e trocou a narrativa da nação pela narrativa dos “Homens”. A segunda foi o início da Guerra Fria. A União Soviética não tinha qualquer pudor em privar os seus cidadãos dos direitos mais básicos – incluindo o da vida – e os Estados Unidos distinguiam-se dos seus inimigos precisamente por assegurar aos seus cidadãos as condições contrárias. A narrativa dos direitos humanos foi-se entranhando como se sempre lá estivesse e como se as democracias tivessem obrigações especiais perante os povos do mundo.

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