A maior parte das pessoas trata os seus direitos como um turista em pensão completa trata o seu hotel. Há que aproveitar tudo o que lá está: não deixar um camarão por comer, um sabonete por usar, e uma toalha por levar. A isso chama-se, em linguagem corrente, exercer direitos. Tal como ao turista parece pena deixar por usar qualquer das coisas que já pagou, assim parece pena não se exercer os direitos adquiridos. Para estas pessoas uma vida em cheio é uma vida passada a exercer direitos.

Haverá outras maneiras melhores de imaginar os nossos direitos, e já agora de passar a vida? A alguns ocorre a ideia da apólice de seguros. Esta ideia partilha com a ideia do hotel a noção de que direitos são coisas que adquirimos e exercemos. Ao contrário dela, porém, direitos são também coisas de que normalmente não nos lembramos. Tal como quem sabe que tem um seguro de incêndio, quem sabe que tem direitos não passa a vida a lembrar-se deles.

A teoria-hotel é primitiva, mas não refrescante. Para ter uma vida em cheio as pessoas têm de passar a vida a fazer aquilo a que têm direito. O chamado exercício da cidadania, que adquiriu a reputação de proporcionar a santidade e que faz adivinhar milícias, é nesta perspectiva quase uma variedade de exercício físico; faz mal como o exercício físico: provoca ansiedade, boa-consciência, e dores nas articulações.

A teoria-apólice é a teoria que as pessoas mais sofisticadas preferem. Tem no entanto um problema que toda a gente que tem seguros conhece bem: em que circunstâncias vale a pena accionar a nossa apólice? Tais circunstâncias exigem cálculo e ponderação, sobretudo porque sabemos que o prémio sobe quanto mais uso dermos à apólice. A teoria exige por isso que se compare sempre aquilo que está a acontecer com aquilo que pode vir a acontecer. Se um monstro japonês triturar e destruir a minha casa numa nuvem de fogo, não tenho dúvidas de que na manhã seguinte estarei a falar com a companhia de seguros. Mas valerá a pena falar com ela se a minha fritadeira tiver chamuscado a chaminé da cozinha?

Dito de outra forma, o problema principal dos direitos não é tê-los; esse problema está sempre resolvido por definição: temos os direitos que temos (uma outra discussão, diferente, é saber se devemos ter direitos que não temos). O verdadeiro problema é quem os tem saber quando vale a pena exercê-los. A única definição razoável de ‘exercício da cidadania’ é: saber quando vale a pena exercer os nossos direitos. A tarefa não é heróica; implica atenção às circunstâncias, e a consciência intermitente de que nem sempre nos convém fazer aquilo que temos o direito de fazer.  É muito bom ter direitos; mas melhor ainda é não ter de os exercer.