Há dois meses que a pandemia por Covid-19 “desembarcou” em Portugal. Dois meses de realidade abrupta, disruptiva e anormal, seja para o nosso dia-a-dia, seja para a saúde em geral e para a doença oncológica, em particular. Abateu-se sobre um Serviço Nacional de Saúde progressivamente depauperado, desde ainda antes da crise de 2011, devido à crónica suborçamentação, perda e consequente escassez de recursos humanos e ao défice de investimento em recursos tecnológicos. A resposta ao natural aumento da procura, decorrente, nomeadamente, do envelhecimento populacional, e ao aumento do custo das tecnologias diagnósticas e terapêuticas disponíveis, tem sido, ao longo do tempo, marcada por uma enorme fragilidade.

Com as atenções e recursos voltados para o combate imediato à pandemia, houve atrasos, sentidos também eles de forma imediata, nos processos de diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença oncológica mas que, com o esforço dos serviços hospitalares, dos cuidados de saúde primários e da rede de saúde pública, foram sendo substituídos por uma progressiva adaptação levando à (re)organização de procedimentos, sempre sob o princípio geral da separação: dos suspeitos de infeção, dos não suspeitos, e dos doentes oncológicos, dos não oncológicos. Sempre que possível procedeu-se ao adiamento dos tratamentos, sem pôr em causa os tratamentos inadiáveis, tendo subjacente a análise individual de risco-benefício e o esforço de informação aos doentes. Aliás, o que seria expectável numa área da saúde que tem sido, reconhecidamente, uma das melhores em Portugal e na Europa.

Também a sociedade civil, em que a Liga Portuguesa contra o Cancro se enquadra, se reorganizou rapidamente, com a manutenção e reforço dos apoios sociais, emocionais e jurídicos ao doente oncológico, o auxílio em equipamentos de proteção individual e outros, aos hospitais e a todos os profissionais de saúde (em sentido lato).

Mas se as consequências da pandemia não foram antecipadas total e devidamente, há que reparar rapidamente e dentro do possível, os estragos causados, há que aprender com os erros, há que preparar o futuro (a curto, médio e longo prazo), há que (re)planear e (re)estruturar a rede oncológica, e há que assumir, de uma vez por todas, que o investimento em saúde tem, individualmente, benefícios diretos e imediatos e é, coletivamente, rentável.

Assim, “depressa”, mas não “à pressa”, torna-se necessário reforçar a literacia em saúde, recomeçar os programas de rastreio oncológicos populacionais, entretanto suspensos, e implementar os programas que estão ainda por desenvolver, salvaguardando sempre a maior segurança. É imperioso reforçar os recursos humanos e os investimentos tecnológicos, tendo em atenção que este reforço deve ser assente em dados de qualidade, disponíveis e universais, bem como em indicadores técnico-científicos, padronizados e adequados aos objetivos de análise.

Reequacionar os circuitos e redes de referenciação e diferenciação oncológica são passos essenciais para que o “tsunami” que estamos ainda a vivenciar e as réplicas económicas, sociais e de saúde que vamos seguramente continuar a sofrer, tenham consequências menores do que as esperadas, com o presente cenário.

A capacidade de passar à prática as ideias que o discurso facilmente replica, permitirá, num futuro próximo, dizer que a inteligência, a sagacidade, a serenidade e o conhecimento do ser humano, conseguiu vencer uma ameaça que é acéfala, invisível e, por isso, traiçoeira.