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Dois pesos e duas medidas

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Moral da história e da História: em matéria de totalitarismos só os comunistas amam. Os fascistas não podem amar e, se por acaso amarem, não se deve falar disso.

Os fascistas não podem amar e, se por acaso amarem, não se deve falar disso. Esta é a conclusão a retirar de muitos dos comentários sobre a reportagem do Observador “A história de amor entre um skinhead e uma menina de Cascais”. Ou, numa versão mais ‘open mind’, mesmo admitindo que Mário Machado se tenha apaixonado, muitos não vêem como aceitável que se conte essa aparentemente improvável história de amor entre um skinhead e uma menina socialista de Cascais.

Mas antes de passar à questão propriamente dita deste meu texto, convém fazer ressalvas. E a primeira é que algures nos céus está inscrita em letras de fogo uma lei que diz que para todos os homens, independentemente dos atos que cometeram, existe sempre algures uma mulher, regra geral mais nova e bem apessoada, disponível para o amar.

Como sabe qualquer pessoa minimamente informada, o contrário não é válido. E assim, enquanto não há criminoso (mesmo que condenado pelo assassínio de várias mulheres), serial killer ou terrorista que não acabe, como aconteceu com o Chacal em França, a ter uma mulher jurando-lhe amor eterno, às mulheres uma vez presas resta-lhes o amor constrangido dos filhos, dos irmãos e dos pais, pois os maridos e os namorados anteriores, quiçá por as grades lhes fazerem mal à vista, tendem a fazer-se primeiro esquecidos e depois desaparecidos. Quanto à possibilidade de uma mulher detida suscitar num indivíduo do sexo masculino que se encontre em liberdade e na plena posse das suas capacidades um sentimento para lá do “Temos pena!”, é algo que faria o protagonista masculino dessa história destronar o Rinoceronte de Java que vive no Vietname como o animal mais raro do planeta. Afinal se no mundo existem apenas entre um a 12 exemplares da variedade de rinocerontes que se obstinam em sobreviver na Java vietnamita, não me parece que existam treze homens capazes de:

a) apaixonarem-se por uma mulher pelo simples facto de terem ficado a conhecer as suas proezas criminais;
b) levarem esse seu encantamento ao ponto de a irem conhecer à prisão;
c) visitá-la regularmente;
d) sentirem-se cada vez mais apaixonados.

Portugal não é obviamente exceção a esta lei mais facilmente demonstrável que a da gravidade: desde um detido das FP-25 por quem se apaixonou uma procuradora do Ministério Público, passando por suspeitos de pedofilia até um padre que, em Fátima, de punhal na mão, tentou atingir o Papa, todos eles encontraram algures no caminho das prisões uma devotadíssima alma do sexo feminino disposta a arrostar com o estigma de ser “a mulher de”.

Na verdade, enfrentar os magotes de fotógrafos e jornalistas ao lado de alguém acusado das piores infâmias é uma coisa que não é para homens mas sim e apenas para mulheres. Nesses momentos, as mulheres têm uma determinação sobre-humana que nenhum homem conseguirá ter alguma vez na vida em idênticas circunstâncias. Se não acreditam vejam os vídeos de Anne Sinclair ao lado de Dominique Strauss Khan após a detenção em Nova York do então presidente do FMI e depois digam-me se estou errada!

Em segundo lugar, não sei se o casal da reportagem alguma vez discutiu economia, mas eu que tenho queimado as pestanas a cruzar aquilo que, na área económica, defende em Portugal a esquerda, sobretudo a ala esquerda do PS e a esquerda radical, com o programa económico da Frente Nacional em França e garanto que, em matéria de política económica, pouco separa a esquerda radical da extrema-direita. Aos mais incrédulos ou indignados com esta minha afirmação, recomendo a leitura da página 21 do programa da Frente Nacional, nomeadamente, dos pontos em que ali se defende a interrupção imediata da aplicação das directivas europeias que visam a liberalização dos serviços públicos; ou a proibição de privatizações e mesmo de abertura de capital a privados nas empresas públicas; ou ainda a sacralização (o termo usado pela FN  é ‘sanctuarisation’) das participações estatais nas grandes empresas de serviço público.

Feitas estas ressalvas, passemos ao que realmente interessa: o amor. Como toda a gente que se senta diante de uma televisão sabe, o amor, e por acréscimo a bondade e a inteligência, são qualidades regra geral reservadas às personagens progressistas ou àquelas que, mesmo vivendo em tempos remotos, planetas distantes ou noutras dimensões, com o progressismo podem ser identificadas. Já as personagens de direita ou a ela associadas são más, estúpidas e geralmente ignorantes. (A realidade às vezes prega partidas a esta reconfortante visão do mundo e por isso mesmo pessoas como Maria Teresa Horta não puderam, aquando da morte de Vasco Graça Moura, deixar de considerar “inexplicável que um homem como o Vasco fosse de direita”).

Naturalmente quanto mais se caminha para os extremos de cada uma das áreas políticas mais se acentua este maniqueísmo e assim alguém que defenda o comunismo é um lutador, uma pessoa de ideais e de fortes convicções. Mais espantosamente até é apresentado geralmente como defensor dos pobres e quando não dos oprimidos. Se se der o caso da pessoa em questão ter levado a sua adesão ao marxismo ao ponto de ter pertencido a organizações terroristas subestimar-se-ão as bombas, os mortos e os mutilados sob o lema do “todos fomos vítimas” para rapidamente se passar a falar desses tempos em que tudo parecia possível e os sonhos de um mundo diferente levaram os mais românticos a cometer alguns excessos, obviamente por ingenuidade.

Já quando se fala da extrema-direita a simpatia pelo nazismo é um crime hediondo praticado por pessoas hediondas. Naturalmente os atentados e agressões praticados pela extrema-direita são vistos como abomináveis e exige-se severidade policial e judicial para com os seus autores.

Assim, se o Observador tivesse contado a história de um qualquer extremista de esquerda português – e existem-nos condenados por terrorismo – teria simplesmente contado uma história de amor. Como Mário Machado é de extrema-direita está, segundo alguns, a branquear a sua personalidade.

Moral da história e da História: em matéria de totalitarismos só os comunistas amam. Os fascistas não podem amar e se por acaso amarem não se deve falar disso.

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