Quem é que disse que os Conselhos Nacionais do CDS são forçosamente enfadonhos? Não é verdade, de maneira nenhuma. E o último, que reuniu no sábado passado, apresentou duas grandes surpresas.

Conto a primeira. A anterior Direcção Nacional declarou, em Janeiro de 2019, pela voz da dra. Assunção Cristas, o apoio do CDS à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Entretanto, tudo o que a direcção de Francisco Rodrigues dos Santos fez foi propor o mesmo. Para grande surpresa, os membros do Conselho Nacional que podem legitimamente ser associados à direcção anterior vieram agora levantar dúvidas a este apoio. Não se compreende. O que aconteceu de Janeiro de 2019 para cá que fizesse os vice-presidentes de Assunção Cristas mudar de ideias? Podem ter boas razões mas, até agora, não as explicaram. E não se tomam decisões destas com base em estados de alma ou em apreciações superficiais sobre o estilo do Presidente da República. Os vetos são mais importantes do que as selfies.

Ouvi censurar Marcelo Rebelo de Sousa por ter “colado os pedaços” da geringonça quando ela teve problemas, uma critica irreflectida e um pouco estúpida. O Presidente assegurou um governo ao país. O que é que os senhores conselheiros estavam à espera? Que ele dissolvesse o parlamento? Para as eleições seguintes lhe devolverem um parlamento pior? Com um reforço do PS e da esquerda? Num momento em que a direita estava desfeita? Queriam mesmo confirmar, com uma vitória eleitoral que ele não tinha, António Costa na Assembleia da República?

Dito de outra maneira, não se limitou aos vetos; também aqui o presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez o que tinha a fazer e amparou o CDS.

A segunda surpresa caiu no Conselho Nacional com o lamento do dr. Mesquita Nunes, que veio pedir contas pela falta de apoio do CDS à candidatura da sua própria pessoa; uma proposta que ele nunca fez e de que os órgãos dirigentes do partido nunca tiveram conhecimento oficial.

Bem vistas as coisas, toda a conversa desta candidatura assentou em hipóteses, umas baseadas em conversas de corredor, outras nas redacções dos jornais. Até àquela reunião, em que falou no assunto pela primeira vez, nunca se ouviu o dr. Mesquita Nunes dizer uma palavra.

Parece que havia “um grande apelo da sociedade civil”. Pessoalmente, não dei por apelo nenhum. Mas o dr. Mesquita Nunes, que aparentemente reparou, o que é que respondeu? Nada. O dr. Mesquita Nunes esperou que o partido desse uma resposta em vez dele.

Dá ideia de que o dr. Mesquita Nunes queria ser empurrado pelo CDS para uma candidatura à presidência da República. Coisa que o dr. Mesquita Nunes faria, com grande sacrifício pessoal, como quando, a meses das eleições, e dando um sinal inequívoco da sua confiança no partido, largou tudo para aceitar um lugar na administração da Galp.

O CDS não deu essa resposta nem podia dar. Seria um atestado de menoridade, o partido sairia logo a perder. Porque apoiaria um principiante, ou, pelo menos, um candidato sem maturidade política para compreender o que é a Presidência da República.

O dr. Mesquita Nunes não apresentou ao CDS a sua vontade de se candidatar. O dr. Mesquita Nunes não falou à sua adorada “sociedade civil” por cima das cabeças do partido. Nenhum ponto desta fantasia resiste a um exame sério; o apoio à candidatura do dr. Mesquita Nunes era uma ideia pueril.

Dito isto, eu também penso que o CDS precisa de estar unido. No entanto, certos debates existem, e eles devem ser discutidos, de preferência nos órgãos internos. Mas se há quem prefira trazê-los para os jornais, então vamos discuti-los nos jornais, à luz do dia. E falemos abertamente do que estamos a discutir. Caso contrário, caímos num desequilíbrio doentio, em que sempre ganharão os indiscretos, porque são eles quem tem acesso aos jornais e à televisão. O país só conheceria a versão deles.