A reindustrialização nacional está na moda, proposta por diversos trendsetters, discutida em vários fóruns, e defendida — não por qualquer interesse corporativo, mas puro amor a este país — por várias organizações de industriais. A ideia é interessante e não é desprovida de mérito e aqui pretende-se frisar a importância de duas das suas vantagens, que não têm passado desapercebidas aos proponentes da ideia.

A mais evidente será a esperada contribuição da reindustrialização para o crescimento económico e criação de riqueza. É sobejamente conhecido que, após séculos de crescimento económico entre o nulo e o insignificante nas economias agrárias e pastorícias de todo o mundo, houve um aumento significativo e sustentado do rendimento1, poluição e nível de bem-estar nos países que se começaram a industrializar: a Inglaterra no século 18, a França, Alemanha, mais alguns países europeus no início e meados do século 19, o Japão e os Estados Unidos no final desse século e depois um pouco por todo o lado.

Depois de se terem industrializado, a maior parte desses países entrou numa fase de desindustrialização no último quartel do século 20, que foi acompanhada por um aumento significativo e sustentado do rendimento e do nível de bem-estar, mas com uma diminuição acentuada nos índices de poluição ambiental. Mesmo naqueles países que são usualmente identificados como tendo mais sucesso na manutenção de um setor secundário pujante e dinâmico, como Alemanha e Japão, Suécia e Suíça, o crescimento económico que houve nas últimas décadas não foi tão devido ao crescimento das atividades industriais, como ao crescimento e dinamismo do setor terciário, setor de atividade onde estão coisas como o comércio e prestação de serviços, sejam bancários, hospitalares2, hoteleiros, políticos & outros tipos de artes e entretimentos.

Que caminhos este mapeamento histórico nos indica? Para uma economia agrária, a industrialização tende a aumentar o rendimento; para uma economia terciária a industrialização será muito provavelmente uma marcha-atrás, um caminho para o empobrecimento: não só um “ó tempo volta para trás”, mas também um “ó PIB volta para trás”, o equivalente em política económica ao que a manutenção du ps nu governo representa em termos civilizacionais. É verdade que não temos a certeza de que a reindustrialização implique um retrocesso no rendimento, porque ainda ninguém a tentou a sério. Mas um indício muito forte de que assim será é que não se vê em nenhuma economia da OCDE — basicamente economias terciárias —,  nenhum movimento de massas, seja de empresários & empreendedores a se quererem tornar industriais3, seja de trabalhadores no setor terciário a se baterem à frente das poucas fábricas que ainda vão abrindo para nelas se tornarem operários.

Para as massas de pobres e indigentes do século 19, a industrialização foi uma bênção — apesar de todos os seus horrores. As fábricas dos países ocidentais continuam a ser um paraíso que atrai multidões de pobres4 do terceiro mundo. Mas para as massas abastadas, bem alimentadas e entretidas do século 21, a industrialização seria um horror — apesar de todas as promessas dos seus proponentes. Sugestão: deixem as pessoas em paz, a fazer o que lhes quer e apetece que, se alguma vez a reindustrialização vier a contribuir para o aumento do seu rendimento, não faltará quem queira ser industrial nem quem queira ser operário, por sua própria iniciativa, conta e risco, sem necessidade de planos nacionais nem dinheiro do estado.

Outra vantagem de reindustrialização é estético. Pessoas de maior idade ainda se recordam com nostalgia da beleza barroca dos complexos industriais no vale do Tejo, em Setúbal e na faixa Aveiro-Porto-Braga, com as suas chaminés em espiral e flecha, o rendilhado e arabesco das sua tubagens, os tons monocromáticos dos edifícios fabris e, not the least, dos bells and smells da liturgia industrial, das sirenes e efluentes. As estruturas fabris de antigamente que sobreviveram, e que tanto repugnavam a Charles Dickens e outros estetas de séculos passados, são agora consideradas património arquitetónico, equivalentes a catedrais e fóruns romanos. Não há que duvidar que a reindustrialização traria um renascimento da arquitetura paisagística nacional, certamente adaptada aos gostos do nosso tempo: o barroco esfusiante dos anos 60 e 70 daria lugar à sobriedade retangular do modernismo já visível nos centros logísticos dos últimos anos, que seria certamente adotado como modelo pelas novas instalações fabris e embelezaria as nossas paisagens rurais & urbanas.

Infelizmente o caminho do nosso país para uma reindustrialização que não interessa à maioria, mas que pode ser do interesse de alguns grupos, está pejado de dificuldades, uma das quais já tinha sido profetizada por Mestre Zhuang (c.369—286 aC):

Quando falta profundidade à água,
Esta não tem força para sustentar uma grande embarcação.
Pedaços de lixo flutuarão como barcos,
Se derramardes de um copo a água num buraco do chão.
Mas poisai lá o copo e ele se afundará,
Pois a água é rasa para tão grande embarcação.
Zhuangzi, Volumes Interiores, 1-2

Como lidar com esses constrangimentos será certamente tema de debate futuro.

U avtor não segve a graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein a do antygo. Escreue coumu qver & lhe apetece. #EncuantoNusDeixam

(1) Rendimento: medida objetiva do valor social de uma pessoa; divide-se em coletável e não coletável, sendo o primeiro o das classes inferiores e o segundo o dos politicamente conectados5.
(2) Hospital: instituição onde os doentes são tratados humanamente na enfermaria depois de passarem pelas sevícias dos serviços de atendimento e os horrores das salas de espera.
(3) Embora não exista atualmente apetência da maior parte dos empresários em investir na indústria, há que notar que essa apetência surge logo nos casos em que os governos dão subsídios maciços, como aconteceu com as ‘energias renováveis’.
(4) Pobre: bem-aventurado, porque dele é o reino dos céus (Mt 5, 3); a inveja que os pobres e a sua bem-aventurança despertam nos abastados e ricos tem levado a inúmeras propostas e planos para a abolição do capital e da riqueza, uma das mais conhecidas e eficazes será a da autoria de Karl Warx, um burguês bon-vivant que nunca trabalhou numa fabrica, proposta que sempre que é aplicada assegura a generalização da miséria e bem-aventurança a toda a população; alguém que, na profecia de Nosso Senhor (Jo 12, 8), teremos sempre no meio de nós, o que leva à questão: será que Deus, na sua misericórdia, se está a servir do warxismo — e du ps — para assegurar o cumprimento desta profecia no nosso país?
(5) Conexão: em política, a contribuição de um quo por troca de um quid substancial.