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Nos próximos  meses Cavaco Silva vai estar no centro das pressões políticas: o PS, com as sondagens a darem-lhe quase maioria absoluta, vai querer antecipar as eleições legislativas. O PSD, pelo contrário, precisa de tempo pois sabe que quanto mais Costa sair da zona de conforto mediático em que tem vivido mais se desgastará. Afinal não bastaram umas chuvadas em Lisboa para que António Costa declarasse não haver soluções para as cheias? Conseguir que, a cada dificuldade, agora não da cidade mas sim do país, Costa diga não haver solução é a estratégia do PSD. Do PSD de Passos, claro.  

Por agora quem está na linha da frente – Passos e Costa – apostam no tempo. Mas fazem-no em sentidos contrários: Passos quer tempo para desgastar Costa. Obrigá-lo a dizer como faria se estivesse no Governo. Costa, pelo contrário, quer antecipar o tempo para beneficiar do estado de graça. Esse estado em que se vive de fazer declarações e não tem de se fundamentar o que se diz ou explicar o que se propõe. Não é por acaso ou por falta de ideias que os socialistas andam à procura da palavra que lhes permita dizer o que pretendem fazer com a dívida: não querendo usar os verbos renegociar ou reestruturar sobra-lhes o quê? Eficácia e Europa não são termos suficientes sobretudo quando os socialistas europeus são todos os dias confrontados com desconcertantes notícias provenientes do seu maior inimigo: Hollande.

O ideal para Costa, ou para qualquer líder da oposição, sobretudo quando não quer detalhar o seu programa, seria repetir o percurso de Sócrates em 2004: eleito secretário-geral do PS no fim de Setembro de 2004, não tinham passado ainda 70 dias quando Sampaio provocou a queda do governo de Santana. O país entrou de imediato em ambiente de campanha eleitoral e Sócrates conseguiu uma maioria absoluta para o PS.

Mas nem Cavaco é Sampaio nem Portugal suporta mais aventuras similares. Naturalmente à espera de Cavaco não estão apenas Costa e Passos. Está também o aparelho do PSD pois a forma como Passos acabar o mandato não é irrelevante para o seu futuro político, que é o mesmo que dizer que isso pode ser determinante para aqueles que aspiram vir a suceder-lhe na chefia dos sociais-democratas. Tanto mais que o PSD sofre actualmente de uma espécie de síndroma da vaga de fundo: homens como Marcelo ou Rui Rio esperam há anos a sua vaga de fundo e teriam nesse gesto de Cavaco o impulso que lhes permitiria (sem se darem a grandes incómodos) chegar onde querem: o primeiro a candidato a Belém, o segundo a negociador com o socialista que estiver em São Bento.

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Mediatica e politicamente falando, pressionar Cavaco vai ser um dos mais populares exercícios dos próximos meses. Mesmo que ninguém acredite que tal produza qualquer resultado ou sequer que esse resultado lhe fosse conveniente, transferir para Cavaco o ónus da situação tem inúmeras vantagens para os protagonistas. Em primeiro lugar porque no mundo do ruído que é o dos comentários não podem existir vazios e atacar Cavaco é um exercício que pelo eco que gera ocupa, sem consequências de maior, o espaço do que não se quer ou não se pode dizer.

Em segundo porque Cavaco é cada vez mais um homem só. Os socialistas não lhe perdoaram vê-lo no lugar que acreditam ser seu por direito, a Presidência da República. Quanto à extrema-esquerda, Cavaco impediu-os de entrar no arco do poder pois a vitória à primeira de Cavaco tornou inúteis os seus votos que numa segunda volta teriam ido para o candidato socialista. Os fiéis de Passos não se reconhecem em Cavaco. Sabem-no em questões sociais muito mais próximo de alguns sectores socialistas do que do actual PSD e convivem mal com os esclarecimentos sobre matéria económica que Cavaco insiste em fazer ao Governo com o ar agastado do professor que chama a atenção de uns alunos distraídos. Em resumo, Passos e os seus próximos intuem que o Presidente da Republica teria preferido ver em São Bento, Rui Rio ou mesmo um tecnocrata como Paulo Macedo, liderando um governo que também integrasse personalidades da área socialista. Quanto ao CDS continua a tolerar Cavaco porque a democracia a tal obriga, mas só por isso. Afinal um homem pode ter saído do Independente mas o Independente nunca saiu de dentro desse homem. E muito menos quando esse homem se chama Paulo Portas.

Nada indica que Cavaco se sinta mal nesta espécie de solidão. Antes pelo contrário, usa-a como comprovativo da sua independência. E com o orgulho característico do grande tímido que é, não lhe desagrada saber que não é provável que algum líder consiga nos próximos anos repetir o seu percurso: dez anos como primeiro-ministro e dois mandatos como Presidente da República. Aqui chegados vamos ao que interessa: deve Cavaco antecipar as legislativas? Não. Se os líderes partidários acharem que o país beneficiará com o facto de o calendário das legislativas não atrasar a apresentação dos orçamentos, podem legislar nesse sentido para o futuro. Mas como até agora não o fizeram resta-lhes adaptar-se às circunstâncias e cumprir com aquilo que eles mesmos estabeleceram.

Aquilo que de mais positivo se pode retirar destes dois mandatos de Cavaco foi sobretudo ele ter garantido ao longo destes anos que as instituições iam funcionar regularmente. Portanto como estava estabelecido. E não que se invocaria a gosto esse funcionamento para actuar casuisticamente. Portugal estava viciado em jogadas e pedidos de demissão. A cada demissão parecia que se punha o contador a zeros. Tivemos demissões que nunca entendemos – lembram-se que fomos para eleições porque Sampaio achou que o governo de Santana estava descredibilizado após a saída do ministro do Desporto, Juventude e Reabilitação? Mais tarde houve quem achasse que Cavaco se devia demitir por causa do referendo aborto. Ou que deveria demitir Sócrates apesar de a Assembleia da República não se comprometer votando favoravelmente uma moção de censura. Agora os pedidos de demissão estão reduzidos ao folclore da CGTP que tal como o galo de Barcelos não se sabe ao certo para que serve mas dá interessantes separadores televisivos.

Podemos não nos ter curado do despesismo, dos delírios em torno dos governos “que dão”, do Estado “que gera crescimento”, dos outros que hão-de pagar as nossas dívidas… Mas quanto mais não seja através do seu feroz institucionalismo Cavaco obrigou-nos a viver sob o regular funcionamento das instituições. Pode não ser muito empolgante quando comparado com o torvelinho da invocação a gosto desse funcionamento mas é sem dúvida um patamar civilizacional apreciável e estimável. Se isto ficar para o futuro como legado de Cavaco sempre se poderá dizer em seu favor que já houve quem saísse de Belém com menos de que se orgulhar.