Talvez por viver numa Quinta cujo primeiro dono foi um bispo (e de Nanquim, mas já lá vamos) de quem não há imagem ou retrato algum, mas cujo espírito está sempre aqui pelo que foi capaz de criar, sei bem que mais importante que uma representação escultórica é aquilo que fica, que inspira e que passa de geração em geração.

Viveu ele em tempos do Padroado Português do Oriente, algo muito pouco compreensível aos olhos de hoje, que perdurou durante séculos com graus de importância diversa e que foi também responsável por grande parte das vivências e intercâmbios artísticos e culturais de que nós todos somos herdeiros. Neste caso entre Portugal e a China, simbolizado por um bispo alentejano de origens humildes que nunca chegou a ver terras asiáticas por questões diplomáticas mas que quis recriar aqui um espaço de fusão das duas culturas bem patente na escolha das espécies arbóreas e no desenho dos edifícios. Provando que é possível inovar em harmonia, juntando à tradição local aquilo que outros fazem e em total respeito pelas diferentes culturas. No fundo o que Portugal tantas vezes fez e continuará a fazer. Uma magia que faz parte do nosso ADN.

Vem isto também a propósito do cenário do vandalismo a que assistimos nos últimos dias. Não faltará muito para que se comece mais ou menos lentamente a pôr em causa a existência de estátuas ou imagens religiosas em espaço público. Então já não pelas razões que agora se alegam mas em nome de uma suposta diversidade que tem por trás uma lógica de pensamento único e de quebra de identidade. Como se os Santos que este ano não podemos celebrar se transformassem na regra e não na excepção a que a pandemia nos obriga. E nós não somos assim.

É pela curiosidade, pela busca do conhecimento e pelo exemplo que avançamos no respeito pelo outro. É apostando na educação que se diminuem as assimetrias. É essa a nossa responsabilidade e é esse o desafio que a nossa geração tem pela frente. Saber aprender com a História e com todos os que até aqui tiveram que tomar decisões e fazer escolhas. Mais certas ou mais erradas, mas coerentes e sem medo de as tomar. Dar a cara pelo que é nosso, quase como um tudo ou nada em relação ao que queremos deixar a quem vem a seguir.

É nisso que penso quando olho todos os dias para o que o tal bispo de há mais de trezentos anos nos deixou: que nós somos a continuidade de um tempo que nos trouxe até aqui e que será tanto mais novo como o quisermos e soubermos ver e redimensionar. E da sorte que temos de o poder viver agora.