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Em Portugal a discussão política não tem sido equilibrada com a esquerda a fazer uso de uma autocomplacência que a permite dizer o que quer, apoiar quem quer, desculpar quem assim entender e acusar, julgar e condenar, num mero instante, os que ousarem um entendimento diferente. É fácil ser de esquerda em Portugal, mas os efeitos serão nefastos para todos.

Este contentamento muito próprio da esquerda não só tem condicionado as posições políticas da direita, que se anula, como acaba por desculpar os disparates e erros cometidos pelo PS, o PCP e o BE. Só assim se compreende que os socialistas, responsáveis pela quase falência do Estado, tenham assinado um memorando de entendimento com a troika mas não tenham contribuído com uma acção concreta para a implementação do resgate financeiro que esse memorando implicava. Só dessa forma se compreende que, esses mesmos socialistas, de regresso ao governo, apesar de não terem ganho as eleições, consigam acusar PSD e CDS de não contribuírem para a governação quando, com o apoio da extrema-esquerda, o PS continua com o tique de camuflar contas públicas fingindo que governa. Apenas a autocomplacência da esquerda permite que o PCP, forte apoiante de ditaduras que destruíram a vida de milhões de pessoas, se apresente como um partido arauto da honra política. Somente esta auto-indulgência da esquerda explica que o BE critique o bullying imobiliário ao mesmo tempo que um seu dirigente o praticava. Só esta impunidade ideológica explica como a esquerda portuguesa tenha apoiado o regime venezuelano que é responsável pela fuga de milhões de pessoas (uma crise muito pior que a grega com os bloquistas a acusarem os alemães de nazis) e ande por aí, pelas televisões e jornais, sem uma explicação, um pedido de desculpas. Nada.

Ser de esquerda em Portugal é demasiado fácil porque se diz o que vem à cabeça sem que daí se retirem quaisquer consequências. É fácil, mas perigoso. Perigoso porque com esta preguiça mental a esquerda portuguesa parou no tempo. É raro conseguir debater com alguém de esquerda que viva em 2018. A maior parte está em 1974, quando muito em 1978 e alguns mesmo nos anos 60, década em que muitos nem sequer eram nascidos. Ora, com o discurso político condicionado desta forma, o país não se encontra minimamente preparado para responder aos desafios do presente. As consequências podem ser gravíssimas devido ao espaço vazio deixado aos populistas. O caso paradigmático é o francês. A esquerda francesa, tão indolente quanto a portuguesa, não conseguiu dar resposta aos anseios de boa parte do seu eleitorado tradicional que acabou por marchar direitinho para a extrema-direita de Marine Le Pen. A inércia que caracterizou o mandato de François Hollande é um resultado imediato do esgotamento intelectual que afundou a esquerda em França.

Em Portugal há quem aponte a culpa também à direita que nunca se afirmou devidamente. Tal é verdade, mas também é legítimo que se reconheça a dificuldade que é debater no meio de tanto ruído e autêntico lixo. Sendo de direita não sou seguramente o único que já viu os seus argumentos serem convenientemente confundidos e adulterados pelo politicamente correcto com o objectivo de quem pratica a façanha conseguir o efeito imediato, mas perverso, de pôr termo a uma conversa que teria tudo para ser profícua.

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Como é que nos adaptamos à globalização sem que se fechem fronteiras? Como é que se lida com os fogem dos seus países sem que a nossa cultura desapareça? Como é que os europeus tencionam viver com menos filhos e com o mundo a bater-lhes literalmente à porta? Como é que se reage ao ataque cultural das minorias sem que o desrespeito de qualquer dos lados se imponha? Como é que os países ocidentais vão viver com os actuais níveis de endividamento? Perante a ameaça russa, os países europeus tencionam investir em armamento? Como? O que vamos fazer quando andróides patrulharem as ruas e robôs substituírem humanos em certos empregos? Estas são algumas perguntas. Respostas, não vejo nenhuma.

Advogado