O manifesto “Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega” é um sinal claro de que os seus subscritores pretendem continuar a impor no mundo universitário português uma forma única de pensar. Eles têm toda a liberdade para criticar o estudo do investigador Riccardo Marchi, que não encontrou sinais de fascismo e racismo no partido chefiado por André Ventura, mas já não têm coragem – ou acham desnecessário – para escrever um manifesto a condenar o branqueamento de tiranos como Lenine, Mao ou Estaline.

Poderão dizer-me que se trata de coisas do passado, mas essa afirmação é falsa, basta ler a última edição do jornal “Avante”, órgão oficial do Partido Comunista Português.

Alguns dos subscritores do citado incitamento à intolerância são historiadores e sociólogos militantes, ou próximos, do PCP e, como tal, deveriam ler esse jornal todas as semanas, como eu faço, que o leio com o objectivo de acompanhar o “pensamento consequente” dos comunistas portugueses.

Se o fizessem, encontrariam textos como este: “A bomba-relógio”, assinado pelo militante Manuel Gouveia.

O texto deste comunista mostra, como escrevi na semana passada, que o Partido Comunista tem cada vez mais dificuldade em defender Vladimir Putin, Presidente da Rússia. Principalmente, quando ele ousa pôr em causa a política nacional realizada por Vladimir Lenine e José Estaline, fundadores da União Soviética. O autocrata tem todo o apoio quando se apresenta como o defensor da paz no mundo, mas criticar os “deuses”…

O autor começa a crítica a Putin com “uma no cravo, outra na ferradura”: “Num texto recente, e razoavelmente asseado no que respeita à reposição da verdade histórica sobre a II Guerra Mundial, Putin acusa Lenine de ser o responsável por ter deixado na Constituição da URSS uma bomba-relógio que levaria à sua implosão.”

“De que fala Putin? Do papel de Lenine para que a Constituição da URSS contivesse as seguintes características: que as diferentes Repúblicas se associavam à Rússia numa União de Repúblicas iguais, em vez de aderirem à República Federativa da Rússia; que essas Repúblicas tinham o direito, a qualquer momento, de abandonar a União” – explica Manuel Gouveia, frisando que Putin errou ao criticar um dos clássicos do comunismo: “Lenine aplicou coerentemente o direito à auto-determinação das Nações, e contribuiu decisivamente para que com o fim do Império russo, ‘uma imensa prisão de povos’, um vasto conjunto de Estados independentes nascesse, a maioria dos quais escolheu então unir-se na URSS. Simultaneamente, a URSS dava alento à luta dos povos oprimidos de todo o mundo, que iriam liquidar o colonialismo”.

Em prol da verdade, é necessário assinalar que esta tirada tem várias mentiras. Primeira, é verdade que a Constituição Soviética previa a saída das repúblicas da União, mas não estabelecia o mecanismo de saída, porque os dirigentes soviéticos jamais imaginariam que o seu poder chegaria ao fim. Segunda, é verdade que Vladimir Lenine definiu a Rússia imperial como “uma imensa prisão de povos”, mas, desde Estaline até ao fim da URSS, em 1991, a propaganda soviética não se cansava de afirmar que os povos tinham aderido ao império russo “voluntariamente” e sempre com “vantagens” para eles.

Merece também atenção a seguinte afirmação: “É verdade que o imperialismo utilizou as características multinacionais da URSS para a atacar e destruir, incluindo o facto da sua Constituição ser a mais democrática do mundo”.

Não será isto uma forma de branquear um dos regimes que mais inocentes assassinou, que mais povos deportou e perseguiu no séc. XX?

A natureza democrática da Constituição soviética não se reflectia na vida real, pois era permanentemente violada pelo poder comunista. A afirmação de que a Lei Suprema da URSS era “a mais democrática do mundo” ficou retratada em muitas anedotas soviéticas. Por exemplo: “Numa aula de Direito Constitucional, o aluno pergunta ao professor: – Eu tenho direito? O catedrático responde: – claro que tem. – Então significa que posso? – retorquiu o aluno. – Claro que não pode! – disparou o professor”. Se os subscritores do manifesto acima citado lecionassem nalguma universidade soviética, talvez alguns dos seus nomes fossem dados ao professor da anedota.

O mais execrável no artigo do Avante, no entanto, é o seguinte parágrafo: “Lenine, e Estaline… foram dirigentes de um Partido de vanguarda na luta pelo socialismo, foram dirigentes do Estado dos trabalhadores, lutavam pela emancipação dos trabalhadores e de todos os povos: não construíam impérios”.

Além de ser uma tremenda falsificação da verdade histórica, isto é um insulto aos milhões de vítimas do marxismo-leninismo-estalinismo. Por outro lado, revela, uma vez mais, que o PCP nunca condenou, nem tenciona condenar o estalinismo. Pelo contrário, faz questão de enaltecer o papel do ditador sanguinário na história.

E isto não é branqueamento do “estalinismo”? Ou os assinantes do manifesto só aprenderam a olhar para um lado? Neste último caso, é grave, pois transmitem aos seus alunos ideias sectárias e tão perigosas como o fascismo.

Infelizmente, ainda não foi possível arranjar formas eficazes de banir o fascismo e o comunismo da vida política, sendo por isso necessário lutar contra esses monstros, mas sem recorrer às formas extremas que eles utilizaram para liquidar os adversários políticos. E tal como é impossível branquear o fascismo e o nazismo, também não é possível branquear o leninismo, o maoismo, o estalinismo.

E depois, ainda há gente surpreendida ao ver responsáveis comunistas “desconhecerem” a existência dos campos de concentração estalinistas e de outros métodos pouco higiénicos de governar. Não terão sido alunos de alguns dos subscritores do manifesto?

P.S.: O ditador bielorrusso, Alexandre Lukachenko, vai ser reeleito Presidente do país, que governa ininterruptamente desde 1994. Mas nunca ouvi a extrema-esquerda criticá-lo, embora a Bielorrússia seja um país que fica no centro da Europa. Será que, desta vez, os protestos contra a prisão dos candidatos da oposição poderão dar uma “ensaboadela” a este admirador de Hitler e Estaline?