Era impossível estar preparado para o que está a acontecer atualmente e se alguém nos tivesse dito há três meses que iriamos viver num estado de emergência, nunca acreditaríamos. A desgraça humana, social e económica que o Covid-19 está e vai continuar a causar pelo Mundo não tem paralelo.

Já muito se escreveu sobre o assunto, inúmeras foram as conferências dedicadas ao tema e existe todo um leque de medidas para atacar a pandemia e os efeitos colaterais da mesma. No entanto, não vejo ninguém preocupado com a grande desgraça que todas estas medidas acarretarão para os “outros” doentes. Digo “outros” mas podia também dizer os “antigos”, pois nos dias de hoje só falamos dos doentes “Covid”.

Atenção, não quero com isto retirar importância à crise de saúde pública que vivemos atualmente, mas sim relembrar que continuam a existir doentes oncológicos, conhecidos e por conhecer, doentes crónicos, que exigem consultas regulares para manter a doença controlada, e pessoas a ficarem doentes, como aliás já ficavam e continuarão a ficar.

Com os hospitais, públicos e privados, reduzidos praticamente a serviços mínimos, muitos diagnósticos e consequentes tratamentos ficarão protelados para um segundo tempo, segundo tempo esse que é indefinido, pois a situação que vivemos é também ela indefinida e isso pode vir a revelar-se fatal para alguns doentes. Os doentes oncológicos continuam a necessitar de tratamento, quer médico, quer cirúrgico. Continua a ser necessária a deteção precoce das doenças oncológicas, permitindo assim um tratamento mais direcionado e com menos efeitos secundários. Os doentes crónicos continuam a necessitar de vigilância para não agravarem o seu estado.

Quero com isto dizer que a pandemia provocada pelo Covid-19 não fez desaparecer estes doentes, que continuam a precisar de cuidados de saúde. Ao invés do que se passa com esta nova doença, nós temos maneira de prever o que é necessário para cuidar destes doentes, pois sabemos quantos doentes oncológicos foram tratados nos últimos anos, quantos doentes foram diagnosticados com neoplasias e quantos doentes crónicos necessitam de vigilância mais e menos apertada.

É assim urgente que todos os hospitais comecem a articular com o Ministério da Saúde a melhor forma de resolverem esta situação, pois as doenças não fazem pausas e de nada valerá não morrer da doença, se morrermos da cura.