Augusto Santos Silva

É preciso ter topete, senhor malhador

Autor
  • Filomena Martins
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O ministro, amigo, apoiante de sempre de José Sócrates, que todos sabemos o que queria/quer dos media. Santos Silva, esse político para todo o serviço, escreveu um ensaio sobre jornalismo e populismo.

Todos os partidos os têm. Aqueles políticos que dão sempre jeito. São sempre úteis. Que convém ter sempre à mão. Porque há trabalhos que têm de ser feitos e há alguém disponível para os fazer. Fraga, Rio?! Não, desculpem, não estou a falar de Elina Fraga. Isso já é oficialmente um caso de justiça. Falo de Augusto Santos Silva.

Quem foi líder do PS nos últimos anos, chegando ou não ao poder, teve sempre estas suas especiais qualidades em conta. E usou-as, pondo-o ao serviço no Governo ou a fazer de altifalante para o melhor e o pior na oposição. Por isso, Augusto Santos Silva fazer parte do executivo da geringonça montada por António Costa não foi, apesar do que vou relembrar a seguir, nenhuma surpresa (como também não foram outros em governos de direita). Surpresa foi o cargo: Ministro dos Negócios Estrangeiros? Diplomacia?! Santos Silva diplomático?!

Podia construir este artigo só com frases suas. Tudo menos diplomáticas. Escolho apenas duas que visam o governo de que agora faz parte. Porque confirmam as cinco observações com que começo o texto. “Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS e são das forças mais conservadoras e reacionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique, estou-me a referir ao PCP e ao Bloco de Esquerda”, foi a famosa declaração que lhe valeu o cognome de ‘o malhador’. Mas há também esta sobre o agora primeiro-ministro: “Havia muita gente a olhar para ele como se fosse um santo milagreiro (…) António Costa ainda tem de comer muita broa para chegar ao Governo”.

Não sei se eles acreditam apenas que a memória das pessoas é curta. Mas sei que é preciso ter qualidades especiais (às vezes boas, outras vezes apenas necessárias) numa profissão assumidamente mal paga para se ser ministro cinco vezes, secretário de Estado uma, deputado sete. E sei que foi por as de Santos Silva serem úteis que Costa, Jerónimo e Catarina assobiaram para o lado e o acharam diplomaticamente perfeito. Ainda que, como na fábula da rã e do escorpião, a natureza acabe sempre por vir ao de cima. Por isso bastou um ano no Governo para, entre uns inócuos apertos de mão a Juncker, uns beijinhos a Merkel e uns paninhos quentes sobre a crise na Venezuela, “o malhador” criasse o primeiro conflito diplomático… interno. Chamando, com tremenda elegância, “feira de gado” aos parceiros da concertação social com quem Vieira da Silva acabara de chegar a acordo. Logo depois, veio o que sabe da atual relação de real politik com Angola.

E eis que esta semana a natureza se transformou em desfaçatez.

O comentador que acusou a TVI de censura e chamou a Sérgio Figueiredo o “ayatollah de Barcarena”. Que, por causa de perguntas sobre Sócrates, acusou de “para-xenófobo” um jornalista na TVI 24. O ministro com a tutela da Comunicação Social que usou a expressão “jornalismo de sarjeta”. Que falou dos media como o “quarto do poder”. O homem que Pinto Balsemão considerou “o pior ministro da Comunicação Social desde o 25 de Abril”. O ministro, amigo, apoiante de sempre de José Sócrates, que todos sabemos o que queria/quer dos media, porque vimos e está em vários processos e acusações judiciais. Esse político para todo o serviço desde pelo menos 1990 escreveu um ensaio para a Folha de São Paulo sobre jornalismo e populismo! Sobre desinformação e fake news! Sobre “deontologia profissional” e “porta-vozes de ideologias” na comunicação social!

É preciso ter topete!

Só mais duas ou três coisas

  • Recebi ontem de madrugada o mail (confidencial?!) da Autoridade Tributária Aduaneira a avisar-me para os perigos, as consequências e a obrigatoriedade de cortar as árvores e limpar as matas em redor da minha casa. Como não tenho arvoredo e a pequena sebe já foi podada, fiquei tranquila. A não ser que achem que é minha responsabilidade fazer aquilo contra o qual reclamo sem êxito há anos junto da Câmara de Sintra (que não sei se também recebeu o mail a avisar das multas a dobrar este ano). Garantir que o relvado/jardim da zona onde moro não se transforme numa selva de inverno e numa savana no verão. É que para que nada ainda tenha ardido vale-nos apenas o senhor das cabras, que costuma cortar o pasto para os seus bichinhos. E como Basílio Horta agora ainda por cima tem preocupações pessoais de milhões
  • Aliás, não é só para Sintra que este mail deve seguir. Talvez para as Juntas de Freguesia de Lisboa também faça sentido. É que ouvindo Fernando Medina explicar o acidente com o autocarro turístico na Avenida na Liberdade ficamos a saber que a culpa foi apenas dos ramos das árvores que a Junta da zona era responsável por ter podado e não podou. A Câmara agora vai já tratar do assunto que com o turismo (mesmo com quem o conduz mal) não se brinca. E o mail pode ser enviado também para a Junta Autónoma das Estradas ou lá o que se chama agora: não só para limpar as valetas antes que chova, mas também para mandar pintar ou pôr novos sinais das localidades nas zonas ardidas nos grandes fogos de Pedrógão. É que oito meses depois ainda lá estão aqueles todos queimados. Pode ninguém ter visto os milhares de fotos. Às vezes estas coisas escapam.
  • Que o Estado não é uma pessoa de bem, já sabíamos: multa sempre por atrasos, paga sempre atrasado sem juros. Além disso é mau pagador: se fosse uma empresa, as dívidas aos fornecedores há muito tempo que o tinham obrigado a decretar falência, com os bens arrestados e as contas congeladas. Mas há limites. E a história da verba de 500 milhões libertada para os hospitais pelo respetivo ministério que depois as Finanças proibiram de ser gasta não é apenas mais uma, não é anedótica, é muito grave. Porque se trata de muito mais do que a habitual contabilidade criativa. Trata-se de desonestidade orçamental. Serve apenas para sair do Orçamento e não aparecer nas cativações.
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