Na Roma Antiga era comum em tempos de crise ou ameaça serem eleitos ditadores — Praetor Maximus — ​pelo senado durante um tempo determinado. Nesse sentido os ditadores romanos poderiam guiar o império como autoridade máxima e gerir as crises e ameaças da forma mais eficiente e direta possível — mesmo que nem sempre tivesse resultado. Hoje, em resposta à guerra sanitária contra o SARS-CoV-2, a Europa das liberdades e democracias cedeu de forma protocolar muitos dos direitos elementares que a realçaram das restantes formas políticas. Uma dinâmica tão postular, sempre presente em alturas de emergência e necessidade brutal, continua de forma cíclica como reacção protectora da civilização ocidental.

Por isso hoje, vivemos em quarentena. As nossas rotinas modeladas às necessidades e exigências colectivas. As fronteiras controladas ao rigor. As saídas à rua racionalizadas. A economia em contração. Os mercados reduzidos ao essencial. Parece que o mundo está a suster a respiração. E na verdade estamos a suster a respiração. Não por 10 segundos, mas pelo que parece ser uma eternidade. Não queremos respirar com o risco de sermos contaminados. Mas respirar é vital.

Numa democracia — e tal como na Roma Antiga — esta condição limitada tem uma data determinada. Os governos europeus, na generalidade dos casos, falam em quarentenas de 2 a 5 semanas — quarentenas estas que não estão coordenadas entre fronteiras. Mas estas previsões são meramente representativas do estado de impreparação em que a comunidade internacional se encontra. Pelo peso da evidência científica, os representantes políticos já começaram a alterar o seu diálogo, usando escalas temporais mais longas, possivelmente até 18 meses ou mais. Neste momento, não me assusta apenas a escala de contaminação mas a escala temporal que nos assombra. Durante quanto tempo conseguiremos suster a respiração?

Apesar de todas as notícias promissoras, não se prevê que venha a existir uma vacina ou cura eficaz nos próximos 6 meses sendo que, após a sua descoberta, o processo de fabricação e distribuição em massa não é imediato. Sem vacina, o que vai acontecer quando não aguentarmos mais suster a respiração e inspiremos de alívio? E não usemos a Ásia como exemplo, muito menos a China. Apesar da mobilização massiva da sociedade ter permitido à China controlar a propagação do vírus, foram também massivas as restrições e obrigações impostas à população de Wuhan, que ainda hoje não respira. Restrições e obrigações que nem nos piores quadros seriam possíveis numa democracia. Restrições e obrigações evidentemente desumanas.

Na Europa, é possível que consigamos inverter o exponencial de contaminação até Maio e reduzir ao mínimo as contaminações até Junho. As restrições sociais e económicas terão de ser eliminadas e todas as nossas rotinas individuais, por mais que alteradas, voltarão ao seu hábito. Voltaremos a respirar. Voltaremos a correr riscos. Sem vacina ou sem uma “imunidade de grupo” estabelecida, ressurgirão novas cadeias de transmissão. Estaremos a falar de várias vagas que terão de ser controladas. Vamos suster novamente a respiração?

As consequências humanas, sociais, políticas e económicas da pandemia serão catastróficas. Vivemos num estado necrótico. Precisamos de ser positivos mas também realistas. Estar fechados em casa durante três semanas não vai fazer desaparecer o vírus. O isolamento social — a qual se deve toda a atenção e importância — trata-se de uma acção colectiva pela sustentabilidade dos serviços de saúde, Tudo será diferente durante um período indeterminado mas que se prevê longo. Mas, e quando voltarmos a respirar?