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Até agora, a Rússia tem conseguido humilhar a Ucrânia com a ajuda do seu poderio militar, mas essa situação pode mudar radicalmente se Kiev decidir voltar a ter armas nucleares. Como diz um ditado russo: “o problema da salvação daquele que se está a afogar é dele”.

Após o incidente militar no Estreito de Kertch, os Estados Unidos e a União Europeia voltaram a condenar o Kremlin por mais uma violação grosseira do Direito Internacional, mas pouco ou nada podem fazer para resolver o problema.

Os dirigentes ucranianos começam a compreender que o seu país não deve esperar apoio decisivo de fora e podem tomar medidas que realmente arrefeçam o desejo expansionista de Vladimir Putin.

A solução poderá estar na bomba nuclear enquanto arma de contenção. Isto pode parecer uma ideia descabida, mas é defendida, entre outros, por Leonid Kutchma, antigo Presidente da Ucrânia que assinou o Tratado de Budapeste em 1994.

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É de recordar que a Ucrânia teve o terceiro maior potencial nuclear do mundo entre o fim da União Soviética, em 1991, e a assinatura desse tratado. Em troca da entrega das armas nucleares à Rússia e da garantia de que a Ucrânia aderiria ao sistema de não difusão de armas nucleares, os ucranianos receberam a garantia da sua integridade territorial por parte da Rússia e de outras potências nucleares.

Ora, como é sabido, Moscovo atirou esse documento para o caixote do lixo ao invadir a Crimeia e ao ocupar parte do território da Ucrânia do Leste. Só pessoas mal-intencionadas podem ainda negar que os separatistas não são, na sua grande maioria, soldados e mercenários russos.

Nesta situação Kiev tem todo o direito de deixar de respeitar o Tratado de Budapeste e reaver o seu estatuto de potência nuclear.

Por um lado, o fabrico de armas nucleares exigiria um esforço económico e financeiro do Estado e do povo ucranianos e, como sabemos, o país atravessa uma pesada e séria crise. Mas, se a Rússia continuar a humilhar o país vizinho com operações como aquela que ocorreu no Estreito de Kertch, Kiev pode mesmo optar por essa solução.

Como é sabido, a Ucrânia herdou um grande potencial industrial e técnico-científico da União Soviética e tem quadros suficientemente preparados para começarem o fabrico dessas armas. Além disso, não nos devemos esquecer que a Ucrânia detém reservas de urânio suficientes para fabricar armas nucleares, nomeadamente de urânio enriquecido.

Quanto ao fabrico de mísseis que possam transportar essas bombas até território russo, é preciso ter em conta que os cientistas ucranianos têm muita experiência nesse campo. O já citado ex-Presidente da Ucrânia foi, entre 1986-1992, director da empresa Yuzhmash, que fabrica motores para foguetões e mísseis. Esta e outras empresas do ramo, não obstante a crise, continuam a produzir.

E, mais um pormenor, a Rússia ficaria ao alcance de mísseis ucranianos de curto e médio alcance, não seria preciso gastar dinheiro em portadores de armas de longo alcance.

Claro que esta saída parece ser a mais indesejável para resolver os problemas entre os dois países vizinhos, mas a paciência dos ucranianos tem limites. Eles podem considerar que essa será a única forma de travar o avanço do Kremlin.

PS. Enquanto estes países combatem entre si, os políticos esquecem-se cada vez mais dos seus cidadãos e das suas mais elementares necessidades. Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde a Rússia ocupa o primeiro lugar quanto ao número de pessoas infectadas com SIDA, seguida da Ucrânia e Bielorrússia. Em 2017, foram detectados 160 mil novos casos na Europa, 130 mil dos quais na parte oriental do continente. A Rússia registou 104 mil novos casos!