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Consternação, horror, nojo. A esmagadora maioria das reacções ao resultado obtido por André Ventura nas eleições presidenciais teve um cheirinho de, pelo menos, um destes estados de espírito. E, com frequência, resultou de um sortido de todos os três. Para ser franco, não percebi a estupefacção. Em particular com o facto do candidato pseudo-fascista ter tido mais votos que Marisa Matias e João Ferreira em terras alentejanas, como Évora, Beja e Portalegre. Quando cidadãos educados na crença de que o Todo-Poderoso Estado resolverá todos os seus problemas constatam que este não os acode em nenhum, é mais do que expectável que se virem para o homem providencial que Ventura anuncia ser.

Estas eleições só vieram mostrar que os partidos comunistas e o Chega competem, em grande medida, pelos mesmos votos. Em particular, os daqueles eleitores que desejam ter alguém que tome conta das suas vidas. Na verdade, tanto os ideais preconizados pelos comunistas, como a amálgama de trafulhices contraditórias defendidas por André Ventura, são como as máscaras para a Dra. Graça Freitas, em Março de 2020: dão uma falsa sensação de segurança. Felizmente, nem uns, nem o outro, deverão ter hipótese de tomar conta dos destinos do país. Porque, infelizmente, no que concerne ao total controlo do Estado e ao total controlo do Estado sobre os cidadãos, o Partido Socialista não vai cá em cedências de posição.

Enquanto isso, no “Campeonato do Fazer de Coisas que Não o São, Problemas Gravíssimos”, houve mexidas no lugar cimeiro. André Ventura, outrora isolado no topo com as suas recorrentes considerações sobre os ciganos, fazendo da comunidade cigana o grande problema de Portugal, foi apanhado na liderança por tudo o que é político e comentador de esquerda que, com estupendo acirre desde Domingo, nos querem fazer crer que André Ventura é o grande problema do país. É apenas justo que, nesta contenda, Ventura e os seus críticos mais ferozes partilhem o primeiro lugar, ex aequo. Mesmo com recurso ao photo-finish é impossível destrinçar qual das alegações é a mais parva.

Entretanto, e só para confirmar, diz que estamos em 2021. O muro de Berlim caiu, portanto, há cerca de 30 anos. Os países do leste da Europa, até essa data sob a pata da União Soviética, ultrapassam-nos, em PIB per capita, a torto e a direito, depois de adoptarem as políticas liberais que trouxeram prosperidade a toda a Europa. A toda? Não! Uma nação povoada por irredutíveis portugueses resiste, ainda e sempre, à invasão dessas pérfidas ideias, indutoras de progresso e bem-estar, ou lá o que é. E a vida não é fácil para quem tenta abrir brechas na inexpugnável muralha socialisto-comunista.

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Portugal: país – garantem alguns. Outros, ainda mais chalupas, juram que europeu – onde, na eleição para Presidente, o candidato liberal perdeu para os dois candidatos comunistas, mesmo apesar destes terem obtido dos seus piores resultados da História.”

Dava, ou não dava, uma grandiosa entrada de enciclopédia?

Não surpreenderá, portanto, que, neste mesmo Portugal, tenha passado pela cabeça do Governo vacinar todo e qualquer deputado, como por exemplo o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, de 32 anos, antes de vacinar a dona Ermelinda, residente no lar Aconchego do Velhinho, em Mondim de Basto, onde na semana passada completou 97 primaveras. Já o que surpreende é o facto de, neste contexto, a economia portuguesa dar sinais de franca recuperação. É difícil de acreditar, sim, mas é inquestionável. Depois de, ao longo dos últimos anos, ter acontecido com milhares de médicos e enfermeiros, preparamo-nos agora para exportar doentes com COVID para vários países europeus. A manter-se a tendência, talvez por estes dias um país europeu simpático possa importar Portugal inteiro. Duvido que alguém se importasse.